16 agosto, 2009




Primaveras Abortadas

Engasgo
Manco
Perco os movimentos dos
Membros inferiores...
É chegada a hora da visita
À casa materna...
De quê adianta adentrar
Naquele âmbito, se na
Cama, não acharei mais
O corpo tão acabado pela
Moléstia que devorava as
Carnes como vermes
Que um dia o farão comigo.
Chamem o Casimiro!
A rua onde deu à luz a este
Miserável rebento chama-se
Casimiro de Abreu,
Por alguns ínfimos anos vi as primaveras
Que cantavas tu, defunto prematuro –
E no presente, onde estão as flores, caro romântico?
Cadê as diversas samambaias que ela trazia
Na varanda,
E os coqueiros que enfeitavam a sala?
As primaveras foram ao túmulo conosco.

BM.

15 agosto, 2009




Poema Desencanta – dor.

Roubaram-me tudo na vida...
Até o direito de morrer me
Fora usurpado...
Deveria ser eu naquela
Maca – sem sentido...
Quisera poder sucumbir
A sete palmos, sentir a
Terra úmida e quente
Sufocando minha carcaça
Gélida...
Só assim retornaria ao
Aconchego de teu ventre e
Lá não seria mais
Pungente está dor
Que morfina não abranda...
...a alma dilacerada...


BM



Ódio

Choro agonizo
Debruçada nas tuas
Vestimentas pagãs.
Eu te odeio, sabes?
Sinto dores,
Tu jamais serás minha.
Não, não quero ouvir
A voz de minha
Madre já na urna
Abaixem a tampa...
Não quero conversar com
Papai, não devo mais
Satisfações – meu velho amigo –
Sim, o sangue escorre...
Por que este avião não explode?
Não quero ver meus filhos
Seus latidos me irritam...
Não me olhem, pérfidos mortais,
Eu vos odeio.


BM



Mortal

São cicatrizes
Um dia foram cortes
Dantes a escara
Sucumbiu-me até o
Punho – atou-me...
Fora aí que começou
O jogo – tu queres brincar?
Sei que não ganharei
Nada, senão o troféu da
Dor – neste ato não sou
Vencedora...
Mas me outorgaram a
Partida... tenho cartas
Estou na mesa...
Tenho sangue... estou no mundo
Infeliz...
Hei, amante, aí perto de ti,
A faca, podes usá-la...
Eu prefiro minha gilete há
Muito envelhecida...
Desenhes a dor em teus
Membros... cá dilacero a pele minha.
Cuidado! Há sangue pelo chão
Não escorregues, podes te machucar...
Fale, responda-me
Por que estás ficando cianótica?
Sufocaste com o que de meus
seios sorveste...?
Não avisei que trago cicuta no corpo?



BM



Foi
Acabou
Dissolveu...
Não!
Urro berro grito
Pari uma mazela...
Acalmai-vos
Fora apenas
Mais uma das
Diversas aberrações
De meu útero
medíocre...


BM



Convite

Venha até aqui
Vamos dançar...
Acendamos as velas,
Na penumbra... os
Incensos... estamos a sós...
A canção é nossa audição
Dos demais sentidos os
Corpos darão conta...
Não te cubras para festas
O salão é nosso imaginário...
Deixe de te pintares
És bela como a prole
Recém saída do útero...
Sejamos autênticas como
Os habitantes do Éden...
... eternas pagãs...


BM

14 julho, 2009




Óbito

Estou aqui, pedaço meu...
Ainda... e nem sei a razão.
Não me peças que deites
Nunca mais na cama que
Fora nossa, e hoje, nela
Resta um homem infeliz, uma de
Tuas partes que aqui ficaram...
Deixaste tantas, a casa de meus
Defuntos parece um berçário,
Com a diferença, as proles
Não choram berram gritam
Pelo aleitamento... as lágrimas
São giletes na carne, são de dor,
A dor mais temerosa, pior ainda
Que a da morte, do último suspiro
Seja lá qual for a causa... é a dor de
Estar vivo.
Estava a 120 km na BR,
Pouco importa se já cheguei em 200.
Preciso daquele livro...
Não me bastaram o óbito nas mãos,
A causa mortis, o corpo gelado nos
Braços meus...
Quero o sacramento, quero um registro,
Quero cloreto de potássio, na veia, por favor...
Antes, por gentileza, procure por um nome
Em teu livro de óbitos... só quero uma certeza
Antes de injetares o composto...
Hei, caso não adiante, tenho um pouco de curare
Na bolsa... tentes tudo,

Dê a tua vida para concederes a morte minha...


BM



Revisitadas

Necessito-te...
Preciso mais do
Que em um futuro imperfeito
De teu hálito quente
Povoando minha face...
A dança dos lábios
Que bailam nas pestanas
Prendendo com ardor
Meus cílios...
É o começo do beijo
O Regresso ao baile
Nossos sentidos revisitados...
Refrescas minha tez
Com teus suspiros,
Invades meu
Céu com tua língua
Que flameja...
Latente ardente frenética
Disrítmicas perdemo-nos
Na valsa clandestina
De nossas bocas sempre
Sedentas...

BM.



(Re) cordar

Teu beijo ainda é
Aquele que há séculos
Roubei em um cinema
Deixando nossos rostos
Pintados tal como palhaças...
Tuas madeixas estão ainda
Mais belas do que quando
As deixei...
Afagar tuas melenas
Com a face repousada
Em meu seio é algo,
Nesta vida, impagável...
Beber a saliva de teus beijos
Vorazes é matar a sede
De quem vagou por anos
No Saara...
Tocar, ainda que, de leve
Estes lábios, é a doçura
Da conquista, é o medo,
O frio da espinha...
É a adolescente inexperiente
Diante da Deusa do Olimpo
Há muito amada.

BM.



Oca

O que há dentro de um carvalho
Já torto vergado reumático
Senão o eco de meu berro insonoro?
O que trago dentro da caixa torácica
Se o de líquido, microscópico...
Pérfidos órgãos?
Ainda restam nos versos rimas?
Nunca nem versejei...
Tudo o que tenho feito é
Mentir fingir fugir
Sem brunir
O que de tanto outrora já luzi
Há dentro da carcaça
Uma dor indizível...
Como dizê-la... como tê-la?
Se tudo de mim já
Fora doado...
escrevo póstuma...
... oca... ostra... outra.


BM

20 abril, 2009




Alucinação

Sim, era tudo tão confuso aos meus olhos glaucomáticos,
Sem entender, eu, uma pequena coadjuvante desta Odisséia,
Faltavam-me as armas armaduras arnês...
Ingênua inocente imergi
Nesta carnificina... sem notar que restariam
Ossos por ossos,
Na guerra entre o destruidor e o destroçado
Éramos estávamos de mãos unas e mortas...
Carregara um pequeno nas mamitas
Por horas a fio, sem sabê-lo,
Ele era ainda um recém nascido
E de mim haviam mutilado as cordas vocais... muda.
A prole adoecida como minh’alma
Perambulávamos as ruas de nossos mortos
Minhas cicatrizes lhe valeram como encosto
Acomodara-se a elas como se por medida
Fossem feitas...
E quem era aquela mulher magra,
Parecendo uma habitante das bocas sem pão
Duma África, quase que perfurada pela
Protuberância dos ossos?
A casa, por sobre outra casa, o que era aquilo?
Uma construção às avessas?
Meias-paredes, colunas e telhas...
Ela me rouba o filho que eu não tinha parido,
Leva-o para os seus braços,
Mas ela não tem minhas cicatrizes
Que tanto aconchegavam o guri,
Às vezes, até das tais saiam sangue,
Era com o que ele matava a sede...
Por que tu na madrugada revelaste fotografias passadas?
Eu era bela, tu tinhas carnes em abundância,
Tu tinhas ainda um emprego, eu me recordo,
Agora sim, quando voltava do curandeiro com o menino
Encontrei-te indo trabalhar, como estavas linda, e tu me disseste,
Cuidas bem dele!
Não, levaram-me de mim, roubaram-me a face,
Naquela sala, tentei reanimá-la, quebrei algumas costelas tuas,
Aquela mulher magra eras tu no futuro...
Gritei, clamei, berrei, como o choro de um natimorto,
Fora a sete palmos contigo minha essência...
Encerro o texto, o tinteiro está seco, leitores.

BM

11 março, 2009




(in) sensível

vesti meus farrapos
caminhei trôpega até
um lugar lúgubre –
não acompanhara nenhuma
procissão ou andarilho –
trajando de humildade
supliquei que o rei dos
diabos, naquele tempo,
dotado de poderes,
costurasse-me a boca...
fiz algumas exigências
quis a linha remendada
que outrora ocupou os
lábios d’alguma feiticeira de renome,
pedi que usasse agulha
enferrujada, contaminada – a mais
imunda que houvesse...
e assim o fez Guaixará...
coseu-me a cavidade, deixando
apenas o canto direito, do qual necessito
para manter calmo o cachimbo...
meu desejo fora atendido
e, por conseguinte, não saberei mais
o quão é sofrível ter um beijo negado,
não ouvirei mais os sonoros e insonoros “nãos”
como resposta aos meus atos...
o último beijo que me importara
foi-me dado por um Cadáver,
difiro-me de Agenor
por ELA estar no chão, ainda que me fosse ausente o
asfalto.



BM.

13 janeiro, 2009




Felina



"Afinal, em teu cenário,

Nada sou que atriz!" by Silvia Mendonça

Atriz que se rebela na mais vis

Cortesãs de uma Paris

Não mais luz, pois o que reluz são

Os gestos de meu corpo

No diálogo com o teu, meu bem amado,

Por tempos, quicá, odiado,

Faltam-me versos, usarei um do Garrett: "não te amo, apenas quero-te,

Sim, querido, sou uma persona

Transmutada de dama sem a menor honra

Em tua cama...

Quero apenas tuas carnes, engalfinhar-me

Por tua derme, lanhar até urgir sangue

De teu dorso,

Jamais, em teu trageto torto,

Largarás, uivando, uma felina.


BM.


Hora Exata


Estou preenchida

Até o topo da minha maior

Felicidade...

A vontade mais latente

Assaz perene

De perder a vida!

Nossa, como estou feliz

Em pressentir a dor de

Meus ossos estilhaçados

Naquela calçada ou

Quiçá embaixo d'algum

Veicúlo que esteja passando

Na hora... hei, mas

Tem de ser na

Hora exata...

No extremo em que broto

Aquele sangue vívido

De meus punhos...

No instante em que sinto meus

Pulmões cancerosos me

Roubando o ato - "a respiração"...

A cinza derramou no papel

Não pude alcançar o cinzeiro,

Perdoe leitores, preciso salvar

o poema...


BM.

Este texto é meu eu-poemático que responde ao último comentário do Anônimo mais (des) conhecido que tenho.

Sim, foram-se as musas, caro Anônimo, nenhuma delas mais tenho, as personagens para quem criava versos dissiparam com o sangue que hoje me serve de tinta.

Porto


Aquele Porto que chamavam

Alegre não é mais...

Não passa de um dado geográfico...

O outro Porto que era

Balsâmico, onde eu ancorava

Minhas naus carentes de

Afeto e Luz

Já não é mais para mim;

Não passa de um signo...

Não passa de um nome, um nome...

Pós-nome?

Pré-nome?

Não sei...

Nem alcanço a Luz de Emergência da

Sala de Minha morte...


BM.

09 janeiro, 2009




Papiro



Desta vez não tenho

De apoio a Família Real...

O que alicerceia minha

Pena são uns cachos

De cor loura, de um

Alvo quase cristalino

Com fios em ouro escuro...

Salpicado o rosto

Com o que mais aprecio -

Sardas...

Perco-me neste mar pistado

Polvilhado povoado de

Pontos que é teu corpo...

Entro num êxtase perpétuo

Adormeço olhando-te,

Viajo peregrinando pelas

Tuas melenas envolta

Desaparecida nos caracóis

Que pendem de tua cabeça

E são agora meu papiro amante.




BM.





Ardentes


Anseio aproximar meus lábios

Cálidos, tocar com total leveza

Tuas pestanas alvas

Com o reles intuito de sanar

A ardência...

Seria um ato quase que santo,

Mas sou profana, não tocaria

Tão somente os cílios que são teus,

Emaranhar-me-ía nos cachos

Dourados desta heroína que

Saltara das páginas do Alencar.

Em total desconserto sem querer

Jamais o acerto,

Furta-la-ía um beijo longo

Seríamos seres sem tempo

Os minutos pausariam

Os relógios fugiriam de nossas vidas...

Ardentes teus olhos já não

Estariam, mas poderia eu sentir

O ardor de teu corpo

Latente pedinte ardente

Rogando pelo roçar de minha pele

Na tua, nossas vozes – afônicas

Nossos corpos dialogando

Num ritmo frenético...

Já curados os olhos,

Iria como curandeira desbravar

As sendas abrasadoras do infitino

Corpo desta que desejo minha.


BM.



Apuros


Acordo numa noite insone

Olho para um lado o vazio,

Transmuto em outro a tua marca

Na cama despovoada, só composta

Pelo corpo meu e dele que ardemos na ausência

De nosso maior vício – tu.

Vasculho, tal como uma cobra

Debatendo-me no leito é inaceitável

Tamanha falta...

Dirijo meu corpo torto até o criado-mudo

Uma foto nossa, estávamos felizes,

Somos felizes, mas esse afastamento

Torna-me cianótica,

Meu mundo multicolor ao lado teu,

Toma tons azuis-arroxeados,

Olho, cambaleio embriagada por

Teu olor em nosso santuário...

Dou voz ao meu choro afônico,

Brado por um instante, apenas um

Rogo exaltada, talvez um pouco alta,

Pelas tuas mãos amáveis tranqüilas

Suaves... meu ventre necessita-te ...

Corra, voe, ele chuta a esfera formada,

Nosso rebento ainda no útero lagrimeja

Tua falta ...


BM.

25 dezembro, 2008




Deslizes


Meu sorriso se fechou

Por todas as mazelas

Cujo coração romântico

Trouxe mais uma vez

A esta que ainda escreve ...

Não sei porque continuo e

Rabisco meus deslizes

Ridículos

Nos papéis amassados

Folhas de prova

Guardanapos de botecos ...

A realidade que o papai noel

Deu a mim neste ano foi a mais

Pungente de todas ...

Feriu ... e dói

A dor penetra minhas veias,

Passeia pelos tecidos

Vaga nos músculos

Perambula os ossos

Nos órgãos até chegar ao

Que pulsa entre aqueles

Velhos pulmões que teimam em ser ação...

E minha reação? E a conseqüência?

Solte minh'alma ...

Peço ainda por favor ... largue-me ...

Dei-me a ti desarvorada de

Medo... e agora é tarde,

Olhe apenas para os lençóis

De tua cama pueril - lá

Acharás as cinzas - quicá

O fumo virgem misturado

Ao pó - só isso restou de

mim ...


BM

06 dezembro, 2008




quimera


tudo me foi vagamente passei por um corredor e vi algumas pessoas deitadas na verdade nem observei ninguém somente tu me parecia lúcida vívida viva mas o óbito nas minhas mãos os choros inclementes estavas de tórax ereto pescoço de pé como vigilante embora os olhos fechados corri até a enfermaria procurei pelo teu leito não havia nada apenas o suporte do soro fisiológico que tomara e uma bolsa de sangue pela metade ainda muitos me avisaram ela faleceu quando dei por mim lançada ao chão em pranto amigo contínuo meu fiel companheiro me debatia lamentando a morte que era tua chamaram médicos para me olharem por que olhar para mim não interesso à medicina tu interessavas procuro meu túmulo enquanto tu buscavas incansavelmente teu berço sem drogas opiáceos morfinas de braços abertos sangrentos salvei um menino em um acidente de carro era apenas o filho que não tive a oportunidade de dar à luz mas ele estava muito ferido eu lembro de gritar por socorro com ele no regaço mas eram insonoros meus berros fui agredida por médicos que negligenciaram socorro ao meu rebento corri para o lado de fora com ele nas mamitas o menino estava bem quando o carro capotara eu o protegi no útero talvez e a moléstia perene era só a minha loucura


BM