27 outubro, 2008



À Lúcia

O semblante é o mesmo
de sempre,
as sardas salpicavam o rosto,
polvilhado o colo, quase que
não se via o alvo, posto que
era tão sensível a energia
deste emanada,
lugar onde
no todo e sempre eu estava acolhida...
Tu te faz feito Madona...não a de Cedro,
nem tampouco as de uma Alemanha
há tanto figurada em Dürer...
Aquela era para mim um ser único,
criatura inigualável...
Heroína assaltada dos rabiscos
de Alencar...
Mas em nosso real
inexistem Ceci e Peri.
Ela é e tão somente será,
quiçá, aquela
que me embala nos cueiros...
ainda acabados de serem bordados...
Além...
Tu alcançaste aquém do cargo de irmã;
a ti, chamo: Madre!


BM

19 outubro, 2008



Hoje

Ouço-te

Calo

Chove,

ama...

me


BM.

10 outubro, 2008




Orquídea de Cianureto (chamar-te-ei assim) adentraste na vida que há tanto não possuo de forma abrupta, entraste dama, não obstante, varrendo meus corredores imundos, espanando o pó de criado-mudo, móveis em toda a casa, por onde tempos, na solidão, vagava o corpo trôpego, bêbedo esbarrando-se nos mármores que compunham minhas colunas não greco-romanas. Tu não bateste, não tocaste a campainha, não uivaste, nem à viva força chegaste, porém, me ganhaste no berro de um natimorto, no grito dos inocentes incautos, e eu, Alice num mundo sem espelhos e coelhos, tampouco maravilhas, cedi, embevecida pelo que não via, minha personagem fora cegada em um tal ensaio, minha Alice - eu, sou cega, para mim, Orquídea, tu nunca tiveste nome, eu não o saberia ler, para quê seres dotada de um?
Dizem, que neste mundo ao qual não pertenço, somos números, concordas?
Logo, minha flor, tu és uma seqüência de algarismo, estás assim, lá naquele cartório onde tudo começou, foste registrada, mas, para quem isso interessa, quiçá, para os tantos que já se aproximaram de ti, vales muito pelo Conselho a que serves, por quanto tens nas inúmeras contas bancárias, se guardas espécies em ilhas próprias, para o pérfido mundo isto é vital, mas eu não fui à escola normal como os demais, cabulara todas as aulas, e aprendi o que a vida me ensinou com a chibata, em meu mundo, num quarto barato, em um castelo de madeiras encalhadas que colhi certa vez isolada numa ilha tão tortuosa. Ousaria até, perguntar a ti, o que significaria tantos números que a sociedade outorga para os humanos viverem?
Minha flor adoecida chegou contaminada, injustamente acometida por algo que logo, ou daqui a um tempo a levará, não sei para onde – em meu cenário não cabe céu nem inferno. Esta flor a quem falo, tentou salvar uma vida, e sem querer, abriste mão da tua. Mais uma vez incauta, ela não seguira os mandamentos de cuidados para consigo, só pensou ela, Rosa, no outro, ele precisava viver, e o destino seguiu teu curso, o cacto infectou minha linda orquídea amarela, hoje, eu só tenho dela a folhagem, nunca mais floresceu, a vejo todos os dias, ainda que da janela, tuas folhas são de um verde vívido, mas desde certa data, nunca mais uma flor. Rego, cuido com tanta cautela de minha flor morta, a deixo dias pegando o sol da manhã, sem água, não pode ser exposta ao gélido, sou eu e minha orquídea apenas no mundo. Sei que ela necessita estar em um orquidário para que tenha saúde, mas meu egoísmo a trancou em minha alcova, atirei as cópias das chaves pelo ralo da suíte, só tenho a original, para levá-la toda manhã à sacada ao sol matutino. Disseram-me, que eu deveria ir até em um especialista, me deram um endereço, (não contem a ninguém) atirei fora o papel, ela não pode ir lá, eles a levariam de mim, eles por-na-íam dentro daqueles lugares fechados, isolada, trancafiada, encarcerada, como a minha plantinha reagiria? Eu não sei, do que conheço dela, não gostaria nem um pouco, ela é de espécie não parasita, minha orquídea, mesmo com os dias contados, me apronta peripécias. Não posso mais falar, tenho medo de que me ouçam, e descubram onde a escondo, eles invadiriam nosso lar, com armas em punho, metralhadoras fuzis, e levar-na-íam a-d-e-u-s.


BM

25 setembro, 2008




Sim, é para ti

Os cabelos ainda são
Aqueles na cor e comprimento
De que gostavas.
As unhas estão manicuradas
Ao teu apreço.
Camisolas e quimonos
Na cor rosa...
A princesa, lembras?
Ainda sonha teu príncipe
Encantado, sentada na
Varanda...
Não te furtes...
Fizeste-me mulher,
Dama,
Meretriz ao teu prazer.
Entreguei a alma.
Lá ainda resta a nossa cama.
Sem arrependimentos...
Fui, não obstante, tua amiga
Zelosa, dócil, querida...
Quando mazelas, teu
Corpo sofria, fui eu a tua mãe...
Era comigo que dormias...
E a mim que deixaste
Ainda com o amor nos versos.

BM



Autoimune

Receio estar sendo acometida
Por uma loucura atroz.
O sangue que corre dos meus
Braços alivia a dor na minh’alma...
Algo inexplicável aos estranhos – todos são estranhos.
Mas comum ao meu corpo...
A navalha desliza na carne
Como a pena no papel...
Sem a menor sensibilidade
Lavo o tapete branco da
Alcova com o vermelho
Do que punge;
Maltrata...
As cartelas dos opiáceos
Sobre o criado-mudo
Estão vazias,
Enquanto a mente dopada,
Entregue...
Pronta para o fim
Pois a vida explica
Mas só a morte ensina.


BM.



Perseguição

Dizem que uma casa tem
Quatro cantos...
Louca alucinada percorro os
Caminhos trilhas pegadas
Que minha memória senil
Ainda guarda...
Cambaleio tropeço em destroços
Do real, me afogo no anonimato;
Como pude perder-te?
E sequer ter nenhuma lembrança tua...
Grito urro molestada uivo baixinho...
Chamo por ti.
Onde? Cadê?
Farto-me e exausta deixo que o
Corpo despenque no abismo
Do cansaço;
Não caçarei mais...
Nasci sob signo não guerreiro...
Calo-me abstenho
Paraliso mármore.

BM


(Re) Petição

Venha, quero tudo de volta
Mato-me
Morro-me corro escorrego...
Retorno derrapo no sangue
De meus cortes tão precisos...
Choro debruçada no passado
Lamento deitada no novo...
Quero o pretérito, tudo igual
Repetir reviver...
Não, quero renascer da cinza
A que me resumiste...
Sumiste... quero estar em
Ambiente seguro, sim, agora
Tenho colo, estou calma, só
Não me cantes “dis-mois comment”..
Não disfarço, me armo, quero
Estar entre balas, fuzis, canhões...
Subir num só pé à Rocinha
E lá, quem sabe, ter minha
Tão esperada – morte...
Enfim.
BM.


Hino - sentes

Penso qual instrumento
Usaste tu para me atingir...
De forma tão pungente
Com combinações mórficas
Cruelmente ilustres.
Meu leque de feridas escaras
Infeccionaste com mínimos
Furos a prego barato, já enferrujado.
Dor, meus estigmas chagas
Arderam tal como Fauno
Adentrando no inferno mais paradisíaco.
As palavras que eram tuas
O silêncio que me pertencia –
Afônica muda mutilada
De cordas vocais amputadas
Emudeci...
E na chaga – a mais bela e importante delas
Estancaste tu a vela bastimal.


BM.


- atados -

Há entre nós
Um hiato, foi o que absorvi tanto
Alcustando teus órgãos
Estas palavras...
Existe amor entre nós,
Um corpo marcado;
Um eu-lírico desenhado,
Ainda um filho me deste...
Malcriado e naturalista;
Formado em letras com
Mestrado em “Filologia Ursônica”.
Existem bestagens entre nós,
Uma banheira transbordada
De espumas....e
Já era tua escova...
Existe dança em nossos corpos,
Arrumavas-te, me tiravas o pijama,
Fazia maquiar-me e íamos...
À sala bailar...
E o hiato que nos separa
Transformou-se em ditongo,
Bebi o sangue que corria
De tuas entranhas;
Puseste o meu no cálice
E mataste toda a sede...
Desenhamos nossas iniciais
Nos membros inferiores...
Existe, agora, em nós,
Dois seres retardados
Por não terem pudor
De viver...


BM


Real - idade


Era tudo muito confuso
Os cenários se misturavam
E percorríamos espaços dantes
Nunca visitados.
Só tinha eu uma súbita
Surpreendente reveladora
Certeza – eras minha
E me atacara de forma
Inesperada...
Aceitei feito cordeiro o convite
Da rainha de Atenas...
Deusa do Olimpo
Realeza egípcia...
Dei a ti meu mundo
Quando juntos corríamos
Às cegas de um mundo proibido.
Eu seria mais uma vez um
Segredo...
Mas queria.
Ao enfim parar de fugir...
Deitamo-nos num motel
Barato... os lençóis gastos
Fizeram-se seda ao receber
Tua pele alva...
As águas gélidas do chuveiro
Tornaram-se brasas na
Fervura de nossos corpos
Ardentes unos
Eu, tão dono de mim...
Rendido aos pés do desconhecido
Sem enxergar horizonte
Em minha retina só luzias
Tu...
Lembro até o marfim
Das cortinas com as quais
Cobri o nu de teu corpo...
Mas tua fome era incessante,
Amávamos-nos incansáveis
Por noites dias séculos milênios
Não havia tempo, não usávamos
Relógios...
Afirmo ter sorrido ao
Final...
Porém a claridade do astro rei
Trouxe-me à cruel realidade.


BM.


Cética

“quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais”
Não farei uso desta oração
Porque odeio frases prontas;
Mas por que a pus no papel?
Por isso já não a estou usando?
Uso, e óbvio. Mas não uso também.
Porem, quem és tu?
Quem é minha mãe?
Quem é meu pai?
Quem são teus pais?
Seriam os teus os meus?
Serias tu minha morada?
Meu inferno?
Minha morada seria o inferno?
Serias tu minha irmã?
Nas escrituras sagradas sim...
Então como posso desejar-te?
Incestuosa, eu?
Serias tu uma deusa?
Só existiram as mitológicas...
Então por que iludir-me como tal?
Elas eram Deusas?
Se são mitos?
Se sou mito?
Se fores mito?
Se fores o errado?
Quem seria o certo?
A que leis devo obedecer?
Se a divindades são lendas...
O Divino seria também...?
Então por que me dizem “vá com Deus”?
Será que ele vem comigo?
Quer estar comigo?
Será que quero estar com ele?
Não meu perguntaram... apenas ordenaram.
Não direi mais uma vez que meu terreno é escorregadio;
Mas já o disse.
Como nego fazendo?
E ainda ouso dizer que não farei...
Estou louca? Onde está escrito
Que devo ser sã?
Por que pensei uma coisa e escrevo outra?
Por que disse sim, por que disse não?
Devo acreditar em ti?
Se a cada dia abre teu guarda-roupas
E as vestimentas me surpreendem...
Por que me surpreendem?
Não sou cética?
Jamais deveria ser surpreendida!
O que e a crença?
Meus amados amantes queridos
O que é o amor afinal?
São cinco da manhã,
É hora de dormir.
Mas quando devo dormir?
Nada sei, apenas que o cerrar
Das pálpebras deveria ser eterno.

BM


Aliança

Ela parada na Presidente Vargas
Surpreende-se com aquele pedinte,
Em sua direção, assalta-la-ía?
Especula assaz assustada
O que seria aquilo?
Qual era a representação?
Eis que o homem estaca
Diante dela – moca, veja isso, encontrei, e
Não tem serventia, acho que lhe caberia no dedo –
E dentro de um papel amassado
Reluz à luz daqueles olhos obscuros
Da dama, um par de alianças
Num ouro de tantos quilates,
Valera certamente mais do
Que a falsa preciosidade
De sua vida – uma pedra filosofal falsificada
De cujo valor não era aquém dos farrapos
Daquele mal nascido maltrapilho
A arrastar seus trapos sem destino
Deixando nas mãos abertas
Da mulher
O símbolo.


BM.

02 setembro, 2008



Des conhecida


Mulher que viera por caminhos errantes
Idólatra me pus diante de ti
Na cabeça uma coroa a que
Horas a fio estagnei-me
Em tamanha adoração.
Doçura apreciei por telepatia
Osmose, sem tocar sequer em pensamento.
Catastrófica fora tua chegada na vida minha,
Empoeirada a mobília espanaste correntes.
Adentraste sem pedir licença
Musa, heroína romântica
Ao tocar-te senti o real, não eras fantasia.
Deste rumo ao meu caminho inexistente.


BM


Grito

Se minhas verdades te incomodam
Agora preciso gritar.
Quantos amanheceres serei
Obrigada a pestanejar
Ainda a ausência tua?
Aquelas pestanas que
Tu tanto beijaste ao
Dormirmos...
Hoje, eu imploro,
Ajude-me aprender a esquecer,
Dar-me-ía eletrochoques
Para não pensar em nossos
Bailes no centro de tua
Sala, as velas
Incendiando os corpos
Ainda vestidos, que
Disrítmicos esbarravámo-nos
Nas estantes, livros, sofás...
Ainda ouvi "Elis"...
De fato, tu me deixas louca...
Desta insanidade quero
O tiro derradeiro.


BM




Lembranças

Onde estão nossos pijamas?
Senão no chão após a tão
Esperada valsa.
Deixa, calma, amor...
Procuro tuas meias.
Aqueita-te, minha Rosa,
Aqui não existem fantasmas;
Mas eu apanho os lenços
Para que enxugues teu pranto
Trazido pelos pesadelos rotineiros.
Fome, minha donzela, eu faço
Uma sopa para te
Alimentares às 5 da matina.
E adormeças ao lado dos anjos;
Não te esqueças do algodão,
Teus sensíveis ouvidos não podem
Serem expostos ao gélido...
Nem da máscara.

BM



Póstuma


Sei, sabemos o que
O mundo no proíbe;
Dotamos o conhecimento
De nossos limites...
Sei que jamais subiria
Contigo ao altar.
Trazes no dedo uma
Aliança que não é
Nosso enlace celebrado
Em meu leito, com algumas
Agulhas e soros;
Mas nossos anéis
Hoje habitam uma caixa
De couro, junto à aliança
Que herdaste de teu amado pai.
Quarda-as em berço nobre;
Agradeço o esmero...
Ainda que sem futuro
Eu deliro sem patologia,
Sem diagnóstico
Sem saber...

BM.




Vieste-me em tempo errante
Hora inoportuna,
Acolheste-me tal Madre à criança
Largada em porta de Igreja
Numa noite de tempestade.
Envolveste-me em manto sagrado
Tua pele.
Tu me deitaste em solo abençoado
Teu regaço.
Na sede, tu me deste água benta -
A saliva.
No ar gélido das paixões fracassadas
Deste-me eletrochoque e cicatrizou
As feridas com mãos hábeis de curandeira.
Ao acordar, estrela caída,
Só tive uma visão - tu...
Pele alva, nariz bem delineado,
Colo decorado com as mais belas sardas,
O véu encosdia-te os olhos,
Mas quem estava alí, sabia eu,
Era a minha maio quimera.

BM



Glacial


Gelo neste frio impiedoso...
Quetiono-me onde estarás agora
Minha heróina romântica que
Saltara dos livros para os braços
Meus...
Ando no gélido que acomete
Os dedos ao tocar o tinteiro...
Tuas mãos, de dedos firmes
E delicados, trazendo ainda na direita
A marca de nosso enlace.
Um lindo e reluzente anel
Que cabe tão bem à tua pele
Alva,
Afago as almofadas,
São quentes
Mas de longe assemelham-se
Ao deitar meu corpo junto ao teu
E sentir a quentura de tua derme.
Foi há tanto que vira uma linda
Dama tentando localizar-me
Já em cólera pela demora...
Eras a perfeita mocinha das prosas:
Os fios que lhe pendiam à cabeça
Eram de uma luz tão vivaz, quase
Brancos, quase ouro, quase santos;
Fios de seda cristalina...
O Negro de teus olhos contrastavam
Maravilhosamente com todo o conjunto...
Mas o poder que destes raivam
Enfeitiçou-me eternamente.

BM.

03 agosto, 2008




Mal necessário


Estávamos em tua sala

Desgutando xícaras de "capuccino"...

Conversávamos longamente...

Não reconheceste nossa faceta a esconder

Teu presente na subida de elevador...

Imagina, haja distração para não

Notares um quadro por trás

De um corpo.

Acho que valeria a mim um pouco

De falta de percepção...

Apenas especulações... devaneios...

De meu eu-lírico retardado.

Hoje, só, tomo minha xícara;

Assim como tu na manhã seguinte...

Antes de seguires para o hospital

Foste bom optar pela solidão?

Sim, respondo por ti...

Não há bem maior do que ser só.


BM.



Enfastiada


É uma pena não poder gritar

Afirmei ter deixado de sonhar

Mas menti - disse ter curado-me

Da ilusão - mas menti;

Até quando planejar?

Quando aprender? Como?

Nos conselhos? Livros?

Erros? Acertos?

Acertar?

Talvez um tiro... na boca

Impossível errar o alvo.

Amar acertando...

Escolher a agulha no palheiro?

Todas essas bestagens são utopia.

Caro Bandeira, render-me-ei:

"Estou farta deste lirismo..."


BM.