07 maio, 2008



Feromônio

Só sabia que ia ao encontro teu
Nada mais era de meu incauto conhecimento...
Questionava-me na longa viagem,
Como amar um ser que nunca vi?
Tocar trêmulo a pena e fazê-la
Deslizar pela fêmea cujo
Paladar me era misterioso...
Cometer poesias para um amor no escuro.
Segui pela rampa íngreme de minhas
Duras jornadas, tal como um cão
Em busca daquela que exala o cio.
No ato em que fitei os olhos profundos,
Achei uma dama sem o vagabundo...
Tão delicada como a seda onde
Teu corpo ressona em brasa serena.
Ora menina, ora mulher...
Ora no picadeiro, ora diligente...
Antíteses constroem este ser tão pleno...
Que por horas me chamaste, uivando
Só, nas madrugadas insones,
Hoje, me deixaste, ondeante, cão domado.

BM

04 maio, 2008



Proposital

O trem saira dos trihos...
Tu te levantas a tempo...
Enquanto passara o veículo
Tão devastador
Não, nem deitaste teu corpo
Longinquo onde faço meu
Trajeto de rotina.
Manter os pés no chão...?
Desconheço essa oração,
Aliás todas, nunca fui boa em sintaxe.
Tu amarras teus pés ao bruto da pedra
Eu leviana levito lunática __
Perfeita idiota _ como sempre fui,
Certamente cabulara as aulas de astúcia.
Ou nem tenha feito esta disciplina.
Seria esta tua milésima vez?
Mais uma dor? Menos um amor?
Se és proposital, sáia da redoma...
A navalha só fere meus membros
Jamais a dividiria contigo...


BM

26 abril, 2008




Poeticídio

O ministério poético adverte: poesia leva à depressão, transtorno afetivo, loucura, e pode, em casos mais extremos à morte.
Aos que têm hipersensibilidade à lírica perturbadora dos versos “augustianos”, meus “anjos” de asas amputadas, estas linhas são contra-indicadas.
Em caso de superdosagem o ideal é recorrer ao “Coelho” e um psiquiatra será de bom senso.

Vago

Estou diante de uma folha em branco
Algo me vem à memória deficiente;
“As impurezas do Branco” – nosso ilustre e
Perturbador Drummond; [calar-me-ei diante do “Amor Natural”]”
desculpai-me, professor; [cometeste a falácia intencional, apesar de não o pretenderes. Deixemos de lado].
Mas este é o dom dos que se arriscam a
Adentrar neste mundo escuso ermo surdo.
Estou preenchida pelo mais veemente vazio
Tão lotada que sai, escoa pelas bordas o nada.
Oca, ostra sem conteúdo livro sem pérolas
Existência sem viver relógio sem bateria...
Ah se pudesse eu ser dona do maldito tempo
[vejam quanta presunção: não domino nem as mãos]
Deste mal que me arrasta aos solavancos
Esbofeteando as faces rasgando minha pele
Que é sensível ao caminho cuja trilha me outorgaram.
Se pudesse pará-lo, fechar os olhos para o futuro;
Entrar em um coma induzido
Que me chamaria ao amanhã
Já com rugas e sem histórias para
Narrar aos netos infecundos.
Ou quem sabe voltar
Naquele passado remoto estagnar-me nele, lá,
Justamente quando me beijaste pela primeira vez
Aquele rosto que cobrias apenas com uma das mãos – acolhedoras.
E acalmava-me o choro com o olor das madeixas tão necessárias
Ao meu sono,
Hoje, despencam em mamitas que poderiam não ser
As minhas.

BM



Diálogo

Ela me dissera – “a criança dá o primeiro passo”.
Quando fora meu primeiro verso?
Meu choro acalmado pelas melenas da Mãe.
O “a” torto na cartilha – até hoje deveria usá-la.
Quando te conheci?
Quando te perdi?
Como o fiz?
Em que lugar te reencontrei?
Por quais sendas te buscarei?
Busca-la-ía em meus devaneios dementes
Encontrar-te-ía naquela fotografia cuja face
É a minha atual, não tu.
Nas nem tão recentes, encontrarei a beleza
O abraço teu semblante austero e terno.
Em minhas memórias acharia o vago,
Estou com o disco rígido vazio.
Nas minhas tormentas acharia a criança
Agarrada às pernas que são tuas, aos berros,
Enquanto me dizias – “calma, filha, te levantas,
Dar-te-ei um banho, por que choras?“
Porque a criança já aprendera a dominar os morfemas,
A juntá-los e formar palavras, o rebento dominara a leitura,
O signo significado e significante.
Agora, não mais do que no contemporâneo
Acho-te nos corredores dos hospitais,
Em macas, perambulando pela enfermaria, não te aquieta.
E onde estou?
Ao lado de fora, com os laudos os fonemas imagens acústicas
[Angústia...]
Tão imperfeitas e trôpegas como o próprio Saussure
Perdoai-me, mestre.
Prossiga Doutor...
Por favor.

BM

Censura

Seria aquela uma das
Imensas pequenas tantas
Empalhadas mofadas roídas...
Personas adormecidas n’alma
Idosa que ocupara
Meus sofás empoeirados
Velho acolhedor de livros censurados...
[Já de páginas e dentes amarelos
pelo cachimbo que lhe pendia os lábios].
Seria minha aquela imagem?
Quiçá tão apenas uma tela sépia.
O laivo de sangue na sobreveste
Cor-de-rosa não fora obra de criança
Arteira a percorrer vales sem mal
Saber andar, máculas feridas escaras...
Cortes profundos superfícies alcançadas
Num naufrágio – salvação?
Não era um longa metragem, nem encenava
“Navalha na Carne”, tinha, decerto ou errado
A lâmina na pele derme epiderme.
Rasgos dos quais expectorara versos
Colorindo de carmim as gazes
Pelo sangue estancado.
Lamúrias, o bebê que ressona
Desperta aos prantos...
Calma, por favor,
Não arrombe...
abrirei.

BM.



Domínio – Dominus – Domi-nó

Queria ser analfabeta funcional
Queria ser encenação de palco
Arlequim de carnaval
A dançar mascarada
Da verdade desmistificada.
Queria não ter emoção
Queria nunca saber da razão
Nem a quem ela pertence.
Queria dominar a fera, em cujas
Aparições deixa rastros de sangue
Nos cueiros, e marcas eternas
Pela pele pestolenta.
Queria não acordar
Queria morrer por algumas
Horas, ah, “As Horas”...
E desvendar os mistérios
Do nada.
Queria odiar os amados
Amante dos transgressores ser.
Queria o domínio do dominado
Solamente...

BM



Conjecturas

Apenas
Penso hesito minto – mito...
Posso estar louca
Posso estar velha
Posso ser Deus.
Se estivesse morta, temeria
Fechar os olhos, cerrar as pálpebras,
Porém, como ainda respiram meu pulmões
Cuja pleurisia não acometera,
Estou aquém de ser intimidada pela urna.
Mas a camisola com a qual desejava
Deitar a sete palmos,
Aquela que te presenteei n’alguns
Destes natais ignóbeis em que passavas
Adormecida... lembras?
Posso estar sendo exigente
Egoísta – talvez- dêem o nome que lhes aprouver
Leitores;
Mas eu,
Eu quero mais.

BM

08 fevereiro, 2008



Renascimento


Tu, que me olhaste num tempo perdido,

Eu, cavalheiro errante, cavalgava por montanhas

Íngremes e sombrias.

Sem noção de regresso,

Sem paixão pela pele,

Sem querer pela vida.

Fui apreendido por ti.

Uma camponesa a me olhar pela janela,

De madeira envelhecida e vidros embaçados,

Mas podias me ver, até que acenei, exaurido,

Numa descida qualquer e me restribuíste

Com um doce sorriso,

Tão tímido.

Naquele instante a flecha do cupido

Atingiu o equívoco,

Transgressor,

Maldito,

Marginal...

Que se deixou contaminar pela tia boca

De lábios salientes, que mais bela

Ficara ao pronunciar: vem!

Pus uma venda em minhas dores,

Tatuei minhas cicatrizes com teu sorriso,

Sequei minhas lágrimas com tua ternura,

E me pego assim, tolo, romântico fora do século,

Mais uma vez pronto para amar!


BM




Reprise


Sim, aqui estou

Enclausurada ao círculo vicioso

Em que gira a minha existência

Tão ignóbil!

Não, dele não sairei;

Deparo-me mais uma vez

Com nomes expostos, correspondências,

Tanta dor, descuro nítido.

Até quando padecerei; "para o todo e

Sempre sendo a 'outra que o mundo condena'"?

Vou à cartomante

Para que me leia,

Sou obra complexa,

De difícil interpretação, porém,

Livro de capa reveladora.

Minha tez denuncia o descaso,

A insatisfação,

Mas dela não me desfaço

E nela me aprisiono.

Ainda não subi ao palco,

Portanto, não sei encenar.


BM




Hiato


Penso, onde estás agora

Este imenso desencontro consonantal

Na minha mente?

Ou na tua?

Sempre, quicá não; tudo é tão

Efêmero.

Um sopro nos traz à vida,

O mesmo a leva.

Mas não crês nisto;

A trivialidade para ti

É uma besteira,

Assim como eu.

A única visão que tenho

São de dois faróis acesos,

Faria eu poesia contemplando

O grande vazio do nada?

Não, quebro a pena,

Atiro o rascunho ao lixo...

É melhor acender mais um cigarro, leitor.


BM

Escuridão


A família Real de amparo,

Luminária? A cinza de charuto

Aceso, ou seria o luar?

Nunca parei para olhá-lo?

Será este meu defeito?

Falta-me luz, onde a encontrar?

Nos hospitais têm geradores...

Assim como nos motéis,

Para onde vou?

Não, quero padecer na penumbra,

Na chuva, na rua, na lama...

Na urna! É para lá que tu vais.

E o espledor que fulgurá um dia em

Meu ventre, trarar-me-á um rebento

Inepto como nós? Ou um intelectual como Nietzsche?

Nunca saberemos...

Disseste-me um dia que me serviria

Como luz de emergência; Mentiste!

Cadê tu?

Padeço como sempre me batendo

Nos móveis, já cansei de relatar

Que ando trôpega.

Onde estão meus pulmões pleuríticos?

Já se foram dois maços.

E a minha consciência?

Em ti?

Não, vagando cidade à fora.


BM


Tresvario


Vejam só no que me tornei...

Não, não quero que sejam platéia

De tamanha desgraça;

Dos psicotrópicos escondidos nos bolsos

[se podia D.João VI os frangos carregar

em lugar similar, por que eu não?]...

Da vitalidade que um dia tivera

E hoje se dissipa cinzas de CAPRI...

Hei, tenho medo de mim!

Não vejam meu braços auto-tatuados,

O sangue ainda escorre.

Por favor, garçon, um pouco de risperidona

No meu uísque, acho que estou esquizofrênica;

Não me mordam os caninos

Ainda sou capaz de tal atitude.

Ela se foi...

Para onde?

Só restara a minha genética

Podre e pérfida,

Inescrupulosa e demente;

Padecerei nesta loucura

Que me pertence.


BM.

07 fevereiro, 2008




Amadora


Fa-la-ía um soneto se

soubesse dominar as rimas.

Declamaria Drummond

se aquela voz ainda tivesse.

Desenharia no ventre teu

arabescos para decorar

o que já é arte,

faria poesia se versejasse.

"Sou poeta menor, perdoai"...

Se não, rabiscaria em papiros,

Com pena de pavão o amor por ti.


BM



Sedenta


Na boca: a saliva

que não é mais minha.

Nos seios: o molde de

teus belos dentes.

Nas costas: o sorriso grafado

em dentadas que ainda

eriçam-me os pêlos.

Nas mãos: o perfume

de tuas madeixas.

No sexo: o anseio ardente

e aquático.

Na imaginação:

o não acontecido.


BM



Re-encontro


Abala-me a visão a luz

que irradia daqueles

olhos azeviche....

Estarreço-me estátua grega

Fincada ao mármore,

sem movimentos,

não posso tocar.

Imersa em um mar voraz,

ensurdeço à melodia de tua voz.

Aproxima-te daquela cujos sentidos

foram furtados ao rever

teu amor maior.

Pois ainda possuo nas mãos

o olor do gosto...

e só me basta um beijo,

para que sinta o paladar da saliva

desta deusa que detém o poder

de avivar A Princesa Adormecida

Sem maldição.


BM



Tesouro


Minha musa

Deusa que não viera de Atenas,

Adormeça serena como se as

Almofadas de teu ninho,

A amparar-te fossem os braços meus.

Relíquia encontrada em expedições

Arqueológicas onde horas

A fio buscava minha maior preciosidade...

Guarda-la-ei junto ao ventre,

Posto que és vida,

Calor,

Existência...


BM




Em uma Hora

Enquanto uma minoria do Brasil
Se apressa, corre, voa, se joga em frente aos ponteiros...
Para adiantá-los em uma hora...
(permaneces inerte)
Menos uma, louvo, súplice, faltam tantas, mas tenho a ventura
De menos uma....
Tu permaneceras inerte, em uma hora perde-se uma vida,
Em uma hora o espermatozóide encontra o óvulo e fecunda...
Em uma hora a criança põe sua cabeça minúscula
Frente a este mundo podre...
Em uma hora eu brotei na última hora do ano...
Em uma hora eu estou a sua frente.

Corro....

Morro....em nada mais do que uma hora...


BM

15 novembro, 2007



Manual


É tarde,
Apague a luz,
Claridade incomoda o que sobrou dos olhos,
Corroídos pelo ácido que expelia rotineiramente.
Feche a porta,
Não quero que as crianças me vejam assim.
Traga a faca, é necessário.
Solte o Lampião e a Maria Bonita,
A gaiola ficou apertada...
Assim como minha dor;
Beije a Hannah, já que não o farei,
Meus lábios se contorcem, e não os domino mais.
Tenha paciência com a Sophia, ela é terrível,
Mas é minha caçula...
Abrace o Nick, ele é carente como a mãe.
Pegue o Pavarotti no colo de vez em sempre,
Ele fica irritado quando está restrito,
Acho que sofre de bipolaridade,
Talvez seja necessário consultar o João...
E a carcaça???
Deixe-a...como há muito fez.


BM

12 novembro, 2007



Introspecção


cá estou eu, em meu canto
predileto da casa...
o box – de paredes gélidas,
que me esquentam a pele,
sentada no piso frio,
com aquela caneta belíssima
que me fora presenteada,
Bandeira de apoio e
algumas páginas de rascunho.
depois de tamanha confissão,
após a cruel descoberta
cuja teoria é embasada pelo Othon
de que só existe uma quantidade “x”
de contar história...
por isso a minha se repete?
ou sou esse monstro terrível
do pântano? essa personificação
do egoísmo? sou, ou me moldaram desta forma?
não sei a resposta.
espero no sinal vermelho
ou avanço e vou em direção ao poste...
ainda tem solução para a vida/morte?
minhas cicatrizes já não estão mais
tão cedidas aos cortes...
minhas lâminas desafiadas...
meu discurso cansado e molestado.
adoeço na Terra do Sol...
o que afirma que nasci para a escuridão...
e adormecerei enquanto o mundo acorda...
capaz que seja menos doloroso...



BM

27 outubro, 2007



Transplante


Tu, hoje me deixas nos braços
Um filho enrolado a um cueiro
Ainda sem bordas, as fraldas
Com as bainhas a serem feitas.
Largas-me assim, com este
Marido ao lado, inconsolável,
Em cujas lágrimas insopitáveis
Derrama toda a crueldade do que
É para um homem a trajetória sem ti.
Abandonas-me na casa de
Meus mortos, onde minhas quimeras
Foram assassinadas pelo destino que seguiu
Friamente o teu curso.
Ouço tua voz, é a minha pérfida e inútil
Consciência que berra tua ausência
Feito um bezerro desmamado.
Teus passos que deambulam de um
Lado a outro desta construção
De sólidas bases, caminhas até teu quarto,
Dele ao banheiro, à cozinha para apagar
O feijão que torra ao fogo e eu sequer noto;
Já não tenho olfato, a não ser para o teu perfume,
Quando invade as paredes de meu
Antro saudoso para me pedir que vá
Para cama mais cedo, e adormeça na paz que não domino.
Desculpa se me acobardo, se desejo mudar o rumo da prosa,
E passar, mesmo que por osmose o sopro de vida,
Que ainda pulsa nestas veias minhas esturricadas,
A ti, para que renasças fênix de asas perfeitas,
E conduza tua casa, teu menino, teu matrimônio...
Venha, encoste a mão no dorso da minha,
Neste ato somos amigas, irmãs, cúmplices, sou um útero
Ainda intacto pronto a derramar-te vida,
Tome meus pulmões com tuas garras e os
Transplante em ti, são saudáveis, acredite,
A mim, deixe apenas o coração proláptico,
Posto que este não é mérito a ninguém.

BM