25 maio, 2008



Valsa


Disseste-me tu - "Sou toda tua..."

Já seria minha a alma cujo

Neste corpo achara o habitat,

Adormecida em um repouso lúgubre?

Minha haveria de ser a boca na qual

Perdi o fôlego no beijo eterno?

Sou eu a dona desta dançarina

Bailarina brincando sobre

Aquela caixa de música?

E o encontro mágico daquelas

Personas sedentas cálidas...

Por séculos esperava a nobre dança,

Que não era uma reles valsa

Ou um sonho de valsa.

Éramos o embalo ritmado

Ao suor que escorria pelas peles...

Partes desnudas deslizavam

No som suave dos gemidos nossos;

Por fim, fundimo-nos UMA.


BM



12 maio, 2008



Proêmio – Diálogo

- Meu pai perguntou por você quando fomos à soverteria. (diz ela)
- (Sorrindo) Ah, ele não poderia esquecer. (respondo)
- E a sua mãe, perguntou? (retruco)
- (Silêncio, olhos marejados) Não, minha mãe não perguntou. (roufenha ela)
- (Mudança de assunto)
- Levanto e vou apanhar algo para beber. (Choro)

Fidedigna Dama

À memória de JUAREZITA DE SCHUELER
(Filha Dedicada, Mulher Célebre, Dama Marital, Mãe Perfeita e...AMIGA de mãos e colo receptivos... absurdamente Intelectual).

Cheguei tarde à vida tua...
Nos anos que seriam últimos.
Não! Cheguei cedo, melhor, na hora exata,
Tu estavas tão bela naquele dia
De uma beleza sublime, celestial – digna de uma nobre Rainha.
Recostada à cabeceira de tua cama,
Era a primeira vez que eu sentara aos pés dela.
Ouvia-te, deveras sedenta do que havia a me dizer – ensinar.
Tua alcova era de um requinte à altura
Daquela que parecia uma Dama Medieval,
Em cujas madeixas louras (como eram lindos os teus cabelos – ainda que não penteados)
Pele alva, mostrara a celebridade das antigas figuras que ilustravam a Literatura.
Mas tu não eras personagem,
Foste filha, esposa, mãe e não obstante
Progenitora de frutos bem criados.
Companheira de um homem simplesmente feliz;
E amiga de tantos, que contigo muitas coisas viveram,
Tantas outras aprenderam.
Por horas a fio a escutavam, incansavelmente.
Saiba que me falta uma pena de ganso,
E o tinteiro da Margarida Goutier
Para rabiscar algumas, que verdadeiramente
Deveriam ser todas, jamais tolas
Laudas que compunhariam um livro
Sobre as poucas e preciosas tardes, manhãs, noites
Em que trocávamos palavras;
Hoje, resta-me de ti apenas uma carta,
Esta, que já na época me arrancara lágrimas,
Agarro-me a ela para sentir
Em um plano qualquer a suavidade
Das mãos que escrevera...
A isto, defino – Saudade!
Flor ululante nas areias de uma Icaraí
Que jamais será a mesma;
Foi-se contigo um fragmento de mim...
Descanse na paz da qual és merecedora.

BM





Sobre – vivente

Cegaste-me a boca
Calaste-me os olhos,
Rasgaste a Luz que
No ventre trazia
Para que adentraste
Perfeita jóia rara
Paixão sombria
Cujas pupilas fulminou;
Só em ti, apenas por ti
Ainda pulsa este
Coração que abandonou
A vagabundagem na
Esquina de tua rua...
Algemaste minhas artérias
Aos punhos teus...
Ando Alice no país da
Fantasia, completamente
Arrastada por este amor...
Latente – em nossa cama ardente.
Sou sobrevivente tua.

BM


Descaso

Só faltara o altar
De resto, o límpido
Marmóreo de teus
Dentes reluziam no
Piso há muito não varrido.
Tu, que de mim te esquivas
Pelas frestas do nosso barraco
De palhas secas...
Eu, que a ti busco incansavelmente
Tal como os idólatras lastimáveis
De um romantismo há tanto
Extirpado...
Mas em minhas veias ainda
Corre sangue de nobre rapsodo
Ou de uma fajuta plebéia;
Agora, meu amor, a tinta secara
E tudo brilha como os olhos teus...
Porém, ainda resta o altar.

BM

Rastro

Olho o azul celeste daquele
Cinzeiro que tu seguraste
Durante todo o tempo em
Que estiveste ao lado meu...
Passo a mão nos adornos,
Meus olhos míopes só
Contemplam três baganas
Deixadas por ti
Antes de ir em má hora...
Foste, fiquei ... tormento.
Teu pijama sobre meus lençóis
Cujo olor de nosso desejo ainda
Permanecia...
Amor, cheiros...
Meu gozo, teu êxtase.
Agora, o que tenho eu?
Além da nicotina queimada
Que me sobe às narinas
Sem permissão...
As cinzas abraçam meu
Corpo – insone.
O que ontem era brasa
Hoje é somente o rastro teu...

BM



Poema Histórico

Estou preenchida pelo que
Não possuo;
Nesta mesa de um mármore já envelhecido
Meu rosto não reflete - é homônimo.
Nos lábios, meus caros, trago
Sal, não o do mar de Copacabana,
Mas os das salinas quase que
Cristalinas.
Não me beijes, deves proteger-te
Do veneno que a Cleópatra me
Deixara com herança.
Não me olhes, machucar-te-íam
As chispas que fulguram de
Minhas pupilas.
Jamais me ames;
Sou a víbora
Que levara a vida
Da Rainha do Egito.

BM



09 maio, 2008



Enjaulada

não...não vou...
Estacarei aqui meus pés
Por mais que gritem a lugar algum
Dirijo-me, é perigoso, posso peder
A direção.
Pender-me-ei, pendurada...
Encarcerada, com uma dessas máscaras
Que não seriam as teatrais, nem as de uma
Veneza há muito perdida,
As de ferro, aço.
Receio que me grude à face,
Mas não é a hora de meu ego falar...
Se agarrar à pele a humanidade estará
Protegida.
Portanto, a fera tem de estar
Na jaula.

BM



In-Tensa

Mato-me, morro-me
Matar-te-ía?
Talvez a sufocaria
Ao ponto de ficar
estarrecida, de olhos
esbugalhados, assim como
os de uma linda noiva enforcada...
Só mataria a ti de amor,
Não por amor...
Deixar-te-ía sem ar
Em um beijo longo e
Molhado que nos levaria
Ao mundo mais aquático
Nunca noutro tempo visitado...
E a sereia de formas
perfeitas e cauda lilás
Jamais de meu mar libertaria.
Quisera eu ser pioneira
A desbravar estas sendas
Devorar com astúcia tuas fendas,
Explorar cada parte até beber
A última gota de sangue.
Se fosses virgem, me propunha
A ensinar-te tudo o que
Não domino, o desconhecido;
Criaríamos a serenidade perpétua
Cujas chaves estariam no regaço teu...

BM

07 maio, 2008



Feromônio

Só sabia que ia ao encontro teu
Nada mais era de meu incauto conhecimento...
Questionava-me na longa viagem,
Como amar um ser que nunca vi?
Tocar trêmulo a pena e fazê-la
Deslizar pela fêmea cujo
Paladar me era misterioso...
Cometer poesias para um amor no escuro.
Segui pela rampa íngreme de minhas
Duras jornadas, tal como um cão
Em busca daquela que exala o cio.
No ato em que fitei os olhos profundos,
Achei uma dama sem o vagabundo...
Tão delicada como a seda onde
Teu corpo ressona em brasa serena.
Ora menina, ora mulher...
Ora no picadeiro, ora diligente...
Antíteses constroem este ser tão pleno...
Que por horas me chamaste, uivando
Só, nas madrugadas insones,
Hoje, me deixaste, ondeante, cão domado.

BM

04 maio, 2008



Proposital

O trem saira dos trihos...
Tu te levantas a tempo...
Enquanto passara o veículo
Tão devastador
Não, nem deitaste teu corpo
Longinquo onde faço meu
Trajeto de rotina.
Manter os pés no chão...?
Desconheço essa oração,
Aliás todas, nunca fui boa em sintaxe.
Tu amarras teus pés ao bruto da pedra
Eu leviana levito lunática __
Perfeita idiota _ como sempre fui,
Certamente cabulara as aulas de astúcia.
Ou nem tenha feito esta disciplina.
Seria esta tua milésima vez?
Mais uma dor? Menos um amor?
Se és proposital, sáia da redoma...
A navalha só fere meus membros
Jamais a dividiria contigo...


BM

26 abril, 2008




Poeticídio

O ministério poético adverte: poesia leva à depressão, transtorno afetivo, loucura, e pode, em casos mais extremos à morte.
Aos que têm hipersensibilidade à lírica perturbadora dos versos “augustianos”, meus “anjos” de asas amputadas, estas linhas são contra-indicadas.
Em caso de superdosagem o ideal é recorrer ao “Coelho” e um psiquiatra será de bom senso.

Vago

Estou diante de uma folha em branco
Algo me vem à memória deficiente;
“As impurezas do Branco” – nosso ilustre e
Perturbador Drummond; [calar-me-ei diante do “Amor Natural”]”
desculpai-me, professor; [cometeste a falácia intencional, apesar de não o pretenderes. Deixemos de lado].
Mas este é o dom dos que se arriscam a
Adentrar neste mundo escuso ermo surdo.
Estou preenchida pelo mais veemente vazio
Tão lotada que sai, escoa pelas bordas o nada.
Oca, ostra sem conteúdo livro sem pérolas
Existência sem viver relógio sem bateria...
Ah se pudesse eu ser dona do maldito tempo
[vejam quanta presunção: não domino nem as mãos]
Deste mal que me arrasta aos solavancos
Esbofeteando as faces rasgando minha pele
Que é sensível ao caminho cuja trilha me outorgaram.
Se pudesse pará-lo, fechar os olhos para o futuro;
Entrar em um coma induzido
Que me chamaria ao amanhã
Já com rugas e sem histórias para
Narrar aos netos infecundos.
Ou quem sabe voltar
Naquele passado remoto estagnar-me nele, lá,
Justamente quando me beijaste pela primeira vez
Aquele rosto que cobrias apenas com uma das mãos – acolhedoras.
E acalmava-me o choro com o olor das madeixas tão necessárias
Ao meu sono,
Hoje, despencam em mamitas que poderiam não ser
As minhas.

BM



Diálogo

Ela me dissera – “a criança dá o primeiro passo”.
Quando fora meu primeiro verso?
Meu choro acalmado pelas melenas da Mãe.
O “a” torto na cartilha – até hoje deveria usá-la.
Quando te conheci?
Quando te perdi?
Como o fiz?
Em que lugar te reencontrei?
Por quais sendas te buscarei?
Busca-la-ía em meus devaneios dementes
Encontrar-te-ía naquela fotografia cuja face
É a minha atual, não tu.
Nas nem tão recentes, encontrarei a beleza
O abraço teu semblante austero e terno.
Em minhas memórias acharia o vago,
Estou com o disco rígido vazio.
Nas minhas tormentas acharia a criança
Agarrada às pernas que são tuas, aos berros,
Enquanto me dizias – “calma, filha, te levantas,
Dar-te-ei um banho, por que choras?“
Porque a criança já aprendera a dominar os morfemas,
A juntá-los e formar palavras, o rebento dominara a leitura,
O signo significado e significante.
Agora, não mais do que no contemporâneo
Acho-te nos corredores dos hospitais,
Em macas, perambulando pela enfermaria, não te aquieta.
E onde estou?
Ao lado de fora, com os laudos os fonemas imagens acústicas
[Angústia...]
Tão imperfeitas e trôpegas como o próprio Saussure
Perdoai-me, mestre.
Prossiga Doutor...
Por favor.

BM

Censura

Seria aquela uma das
Imensas pequenas tantas
Empalhadas mofadas roídas...
Personas adormecidas n’alma
Idosa que ocupara
Meus sofás empoeirados
Velho acolhedor de livros censurados...
[Já de páginas e dentes amarelos
pelo cachimbo que lhe pendia os lábios].
Seria minha aquela imagem?
Quiçá tão apenas uma tela sépia.
O laivo de sangue na sobreveste
Cor-de-rosa não fora obra de criança
Arteira a percorrer vales sem mal
Saber andar, máculas feridas escaras...
Cortes profundos superfícies alcançadas
Num naufrágio – salvação?
Não era um longa metragem, nem encenava
“Navalha na Carne”, tinha, decerto ou errado
A lâmina na pele derme epiderme.
Rasgos dos quais expectorara versos
Colorindo de carmim as gazes
Pelo sangue estancado.
Lamúrias, o bebê que ressona
Desperta aos prantos...
Calma, por favor,
Não arrombe...
abrirei.

BM.



Domínio – Dominus – Domi-nó

Queria ser analfabeta funcional
Queria ser encenação de palco
Arlequim de carnaval
A dançar mascarada
Da verdade desmistificada.
Queria não ter emoção
Queria nunca saber da razão
Nem a quem ela pertence.
Queria dominar a fera, em cujas
Aparições deixa rastros de sangue
Nos cueiros, e marcas eternas
Pela pele pestolenta.
Queria não acordar
Queria morrer por algumas
Horas, ah, “As Horas”...
E desvendar os mistérios
Do nada.
Queria odiar os amados
Amante dos transgressores ser.
Queria o domínio do dominado
Solamente...

BM



Conjecturas

Apenas
Penso hesito minto – mito...
Posso estar louca
Posso estar velha
Posso ser Deus.
Se estivesse morta, temeria
Fechar os olhos, cerrar as pálpebras,
Porém, como ainda respiram meu pulmões
Cuja pleurisia não acometera,
Estou aquém de ser intimidada pela urna.
Mas a camisola com a qual desejava
Deitar a sete palmos,
Aquela que te presenteei n’alguns
Destes natais ignóbeis em que passavas
Adormecida... lembras?
Posso estar sendo exigente
Egoísta – talvez- dêem o nome que lhes aprouver
Leitores;
Mas eu,
Eu quero mais.

BM

08 fevereiro, 2008



Renascimento


Tu, que me olhaste num tempo perdido,

Eu, cavalheiro errante, cavalgava por montanhas

Íngremes e sombrias.

Sem noção de regresso,

Sem paixão pela pele,

Sem querer pela vida.

Fui apreendido por ti.

Uma camponesa a me olhar pela janela,

De madeira envelhecida e vidros embaçados,

Mas podias me ver, até que acenei, exaurido,

Numa descida qualquer e me restribuíste

Com um doce sorriso,

Tão tímido.

Naquele instante a flecha do cupido

Atingiu o equívoco,

Transgressor,

Maldito,

Marginal...

Que se deixou contaminar pela tia boca

De lábios salientes, que mais bela

Ficara ao pronunciar: vem!

Pus uma venda em minhas dores,

Tatuei minhas cicatrizes com teu sorriso,

Sequei minhas lágrimas com tua ternura,

E me pego assim, tolo, romântico fora do século,

Mais uma vez pronto para amar!


BM




Reprise


Sim, aqui estou

Enclausurada ao círculo vicioso

Em que gira a minha existência

Tão ignóbil!

Não, dele não sairei;

Deparo-me mais uma vez

Com nomes expostos, correspondências,

Tanta dor, descuro nítido.

Até quando padecerei; "para o todo e

Sempre sendo a 'outra que o mundo condena'"?

Vou à cartomante

Para que me leia,

Sou obra complexa,

De difícil interpretação, porém,

Livro de capa reveladora.

Minha tez denuncia o descaso,

A insatisfação,

Mas dela não me desfaço

E nela me aprisiono.

Ainda não subi ao palco,

Portanto, não sei encenar.


BM




Hiato


Penso, onde estás agora

Este imenso desencontro consonantal

Na minha mente?

Ou na tua?

Sempre, quicá não; tudo é tão

Efêmero.

Um sopro nos traz à vida,

O mesmo a leva.

Mas não crês nisto;

A trivialidade para ti

É uma besteira,

Assim como eu.

A única visão que tenho

São de dois faróis acesos,

Faria eu poesia contemplando

O grande vazio do nada?

Não, quebro a pena,

Atiro o rascunho ao lixo...

É melhor acender mais um cigarro, leitor.


BM

Escuridão


A família Real de amparo,

Luminária? A cinza de charuto

Aceso, ou seria o luar?

Nunca parei para olhá-lo?

Será este meu defeito?

Falta-me luz, onde a encontrar?

Nos hospitais têm geradores...

Assim como nos motéis,

Para onde vou?

Não, quero padecer na penumbra,

Na chuva, na rua, na lama...

Na urna! É para lá que tu vais.

E o espledor que fulgurá um dia em

Meu ventre, trarar-me-á um rebento

Inepto como nós? Ou um intelectual como Nietzsche?

Nunca saberemos...

Disseste-me um dia que me serviria

Como luz de emergência; Mentiste!

Cadê tu?

Padeço como sempre me batendo

Nos móveis, já cansei de relatar

Que ando trôpega.

Onde estão meus pulmões pleuríticos?

Já se foram dois maços.

E a minha consciência?

Em ti?

Não, vagando cidade à fora.


BM


Tresvario


Vejam só no que me tornei...

Não, não quero que sejam platéia

De tamanha desgraça;

Dos psicotrópicos escondidos nos bolsos

[se podia D.João VI os frangos carregar

em lugar similar, por que eu não?]...

Da vitalidade que um dia tivera

E hoje se dissipa cinzas de CAPRI...

Hei, tenho medo de mim!

Não vejam meu braços auto-tatuados,

O sangue ainda escorre.

Por favor, garçon, um pouco de risperidona

No meu uísque, acho que estou esquizofrênica;

Não me mordam os caninos

Ainda sou capaz de tal atitude.

Ela se foi...

Para onde?

Só restara a minha genética

Podre e pérfida,

Inescrupulosa e demente;

Padecerei nesta loucura

Que me pertence.


BM.

07 fevereiro, 2008




Amadora


Fa-la-ía um soneto se

soubesse dominar as rimas.

Declamaria Drummond

se aquela voz ainda tivesse.

Desenharia no ventre teu

arabescos para decorar

o que já é arte,

faria poesia se versejasse.

"Sou poeta menor, perdoai"...

Se não, rabiscaria em papiros,

Com pena de pavão o amor por ti.


BM



Sedenta


Na boca: a saliva

que não é mais minha.

Nos seios: o molde de

teus belos dentes.

Nas costas: o sorriso grafado

em dentadas que ainda

eriçam-me os pêlos.

Nas mãos: o perfume

de tuas madeixas.

No sexo: o anseio ardente

e aquático.

Na imaginação:

o não acontecido.


BM



Re-encontro


Abala-me a visão a luz

que irradia daqueles

olhos azeviche....

Estarreço-me estátua grega

Fincada ao mármore,

sem movimentos,

não posso tocar.

Imersa em um mar voraz,

ensurdeço à melodia de tua voz.

Aproxima-te daquela cujos sentidos

foram furtados ao rever

teu amor maior.

Pois ainda possuo nas mãos

o olor do gosto...

e só me basta um beijo,

para que sinta o paladar da saliva

desta deusa que detém o poder

de avivar A Princesa Adormecida

Sem maldição.


BM



Tesouro


Minha musa

Deusa que não viera de Atenas,

Adormeça serena como se as

Almofadas de teu ninho,

A amparar-te fossem os braços meus.

Relíquia encontrada em expedições

Arqueológicas onde horas

A fio buscava minha maior preciosidade...

Guarda-la-ei junto ao ventre,

Posto que és vida,

Calor,

Existência...


BM




Em uma Hora

Enquanto uma minoria do Brasil
Se apressa, corre, voa, se joga em frente aos ponteiros...
Para adiantá-los em uma hora...
(permaneces inerte)
Menos uma, louvo, súplice, faltam tantas, mas tenho a ventura
De menos uma....
Tu permaneceras inerte, em uma hora perde-se uma vida,
Em uma hora o espermatozóide encontra o óvulo e fecunda...
Em uma hora a criança põe sua cabeça minúscula
Frente a este mundo podre...
Em uma hora eu brotei na última hora do ano...
Em uma hora eu estou a sua frente.

Corro....

Morro....em nada mais do que uma hora...


BM

15 novembro, 2007



Manual


É tarde,
Apague a luz,
Claridade incomoda o que sobrou dos olhos,
Corroídos pelo ácido que expelia rotineiramente.
Feche a porta,
Não quero que as crianças me vejam assim.
Traga a faca, é necessário.
Solte o Lampião e a Maria Bonita,
A gaiola ficou apertada...
Assim como minha dor;
Beije a Hannah, já que não o farei,
Meus lábios se contorcem, e não os domino mais.
Tenha paciência com a Sophia, ela é terrível,
Mas é minha caçula...
Abrace o Nick, ele é carente como a mãe.
Pegue o Pavarotti no colo de vez em sempre,
Ele fica irritado quando está restrito,
Acho que sofre de bipolaridade,
Talvez seja necessário consultar o João...
E a carcaça???
Deixe-a...como há muito fez.


BM

12 novembro, 2007



Introspecção


cá estou eu, em meu canto
predileto da casa...
o box – de paredes gélidas,
que me esquentam a pele,
sentada no piso frio,
com aquela caneta belíssima
que me fora presenteada,
Bandeira de apoio e
algumas páginas de rascunho.
depois de tamanha confissão,
após a cruel descoberta
cuja teoria é embasada pelo Othon
de que só existe uma quantidade “x”
de contar história...
por isso a minha se repete?
ou sou esse monstro terrível
do pântano? essa personificação
do egoísmo? sou, ou me moldaram desta forma?
não sei a resposta.
espero no sinal vermelho
ou avanço e vou em direção ao poste...
ainda tem solução para a vida/morte?
minhas cicatrizes já não estão mais
tão cedidas aos cortes...
minhas lâminas desafiadas...
meu discurso cansado e molestado.
adoeço na Terra do Sol...
o que afirma que nasci para a escuridão...
e adormecerei enquanto o mundo acorda...
capaz que seja menos doloroso...



BM

27 outubro, 2007



Transplante


Tu, hoje me deixas nos braços
Um filho enrolado a um cueiro
Ainda sem bordas, as fraldas
Com as bainhas a serem feitas.
Largas-me assim, com este
Marido ao lado, inconsolável,
Em cujas lágrimas insopitáveis
Derrama toda a crueldade do que
É para um homem a trajetória sem ti.
Abandonas-me na casa de
Meus mortos, onde minhas quimeras
Foram assassinadas pelo destino que seguiu
Friamente o teu curso.
Ouço tua voz, é a minha pérfida e inútil
Consciência que berra tua ausência
Feito um bezerro desmamado.
Teus passos que deambulam de um
Lado a outro desta construção
De sólidas bases, caminhas até teu quarto,
Dele ao banheiro, à cozinha para apagar
O feijão que torra ao fogo e eu sequer noto;
Já não tenho olfato, a não ser para o teu perfume,
Quando invade as paredes de meu
Antro saudoso para me pedir que vá
Para cama mais cedo, e adormeça na paz que não domino.
Desculpa se me acobardo, se desejo mudar o rumo da prosa,
E passar, mesmo que por osmose o sopro de vida,
Que ainda pulsa nestas veias minhas esturricadas,
A ti, para que renasças fênix de asas perfeitas,
E conduza tua casa, teu menino, teu matrimônio...
Venha, encoste a mão no dorso da minha,
Neste ato somos amigas, irmãs, cúmplices, sou um útero
Ainda intacto pronto a derramar-te vida,
Tome meus pulmões com tuas garras e os
Transplante em ti, são saudáveis, acredite,
A mim, deixe apenas o coração proláptico,
Posto que este não é mérito a ninguém.

BM



13 outubro, 2007



Ausência


Tu, que te agarras às minhas camisolas de seda inexistentes...
Ou de chiffon com adornos bordando uma delicadeza única
Não podes agarraste à elas, são invisíveis, são foto polaroid
Perderam-se no tempo de um século malogrado...
Hoje, só te restam meus pijamas, de calças folgadas, azul celeste...
Mangas compridas, e botões cintilantes como as lágrimas
Que brontam na face tua, escaldando as maças tão límpidas
De um rosto que não nascera para receber a acidez do pranto
Provocado pela ausência do seu amado...
Tu, que hoje não pode acorrentar-me a teus braços firmes
Nem podes tocar uma canção de ninar para que eu adormeça
Sem paz, sem zelo, com descuro...
Tu, que os olhos são refletores d'alma...
Qual, Ismália enlouquecida, hoje quer se atirar ao mar
Pois fora tomada pela ilusão de que existiam duas...
De que eu, Bruna, era par;
Nego, sou ímpar, não há no mar a minha figura reluzente à luz nocturna
Tal como a lua de Alfhonsus..
Portanto, não te atires aos meus lençóis pueris,
Minha lembrança amnésica não está no perfume daquele refil na suíte.

BM

06 outubro, 2007





“Por enquanto eu morri, vamos ver se renasço” C.L.

Suicidada

Agora está decidido,
Vou cortar as unhas,
Não as pintarei mais de carmim,
Rasparei as melenas,
Não as deixarei mais azeviche,
Serei ruiva na certidão,
Incompleta de nascimento,
Perpétua pelo destino,
Carregarei minha cruz,
Se me deram este peso, eu suponho
Que devo suportar.
Não rasgarei mais meus membros,
Golpearei as poesias que correm soltas
Envenenadas como o sangue
Contaminado de nossas veias.
Não matarei a ti, pois morrerás comigo.
Não tomarei mais cicuta com a validade vencida,
Brindaremos cianureto em meu velório,
Fugirei das mesóclises, não sei usá-las mesmo.
Minhas orquídeas, despetá-las-ei...
Tenho raiva delas, tenho asco de mim,
Tenho amor por nós,
Por isso, me odeio.
Por isso, amo-te.
Posto que tu és luz,
Enquanto eu sou sombra,
És alva,
Enquanto eu de nacionalidade duvidosa.
És nobre,
Nada além de uma plebéia sou...
És culta,
Nem tenho gramática.
És poeta,
Sou verborrágica.
És vida,
Sou a urna clemente onde
Deitarei ao som de Fédon,
O cadáver há muito falecido.

BM.





Suplícios


Já não são mais somente três vezes,
Que clamei por ti.
Em meio as noites desatinadas de meu percurso
Torto, tonta eu já perco as contas.
Já não são mais três os morfemas
Que grafam minha infelicidade,
Rascunharia a face por tanto descuro.
Em tão alto grau quis assassinar-te,
Mas não posso me valer do pretérito,
Posto que me seja imperfeito,
Valho-me do agora e nunca,
Do quanto quero tê-la morta
Em meus braços, da vontade
Que me invade o peito, me crava os pulmões
Já pleuríticos, de ter emergido teu corpo
Já sem vida desta lama, poltronice na qual
Imergiste, e me parece sem volta.
Sinto eclodir em meu peito que não é proláptico
A avidez de te presentear com o mais belo
De minh’alma – tua morte.
Assim, poderia roufenhar baixinho
Ao pé de teu ouvido cadavérico:
- Acorda, Alice.

BM.

31 agosto, 2007



Pérfidos Humanos


O que devo a esta raça de humanos?

Homens vis, aleivosos como que

Por instinto fosse natural dar-se

À traição - mero deleito, condição já natural!

Por que me condena a sociedade por atos

Considerados transgressores?

Não cobiço a mulher do próximo,

Não mato,

Não furto...

Porém, me é negado o direito de abraçar,

Beijar,

Acariciar...

Pois posto que o que desejo a lei proibe

Mas não condena os peixes grandes...

As verdadeiras mazelas de um país imundo.

Não impede as companhias aéreas, prefere

Fazer o DNA dos restos mortais iverossímeis

Daqueles cadáveres carbonizados.

Até quando viverei enclausurada?

Por quanto tempo manterei a minha farsa?

Meu casamento perfeito aos olhos da família tradicional?

Um homem para pousar ao meu lado nas datas comemorativas,

No meus álbuns fotográficos, em meus porta-retratos empoeirados...

Se a única que pisa e passeia nos cômodos de meu coração

E minha eterna paixão - tens o mesmo sexo que o meu.

Por que esconder-me?




BM



15 agosto, 2007




Declaração


Hoje amante

Amada,

Calada,

Olhar-te

Não é simplesmente

Vê-la em nossos lençóis pueris.

É ver o belo liberto,

Do que oprimia o peito meu

Agora, regaço teu.

Estes olhos que de um negrume,

Cintilam ao pousarem na

Vil poeta que tenta em líricas

Transfundir o amor que sentes

À veia da mulher

Esperada,

Buscada,

Alcançada.

Escalei teu corpo...

Feito alpinista agarrada a teus seios,

Com o intento de alcançar

Tão somente a boca tua,

E fazer de nossas carnes,

Uma só.


BM



Restos Ovuláres




Olhar para trás é observar


As trilhas de meus caminhos


Sempre escusos, no chão


Misturado ao barro, os farrapos


De minha vaidade se desfazem pó.


Os lençóis manchados de sangue,


Incessante, a cada mês,


Atiram-me na face a inutilidade


De um útero seco,


Quiçá uma histerectomia


Impediria-o as lágrimas


De um óvulo não fecundado,


De um berço vazio,


Das fraldas ainda embaladas.


Criatura condenada à solidão


Noturna, a uma cama para dois,


E sequer os fantasmas desejam


Dividi-la comigo,


Aquele anel, aquele ícone


Que simbolizaria o enlace de duas vidas


Não veio no pacote da minha.


Fui presenteada apenas com a dor


De todos os intelectuais,


Quisera eu ser apenas um vegetal,


Um ser irracional,


Mas me segue a sina dos imortais,


O destino cruel da loucura placentária.




BM



Vidas Cruzadas 23/07/07



À memória de Maria do Socorro Gomes

(Excelente Mãe, Ilustre Mulher, Amável Irmã, Dedicada Avó, Amada Tia, Incomparável AMIGA).


Eis-me aqui, sentada neste tronco morto

ao lado desta casa, as lembranças

são tão nítidas, custo a crer

que acabara de ver-te naquela urna,

indo ao fundo de um buraco

onde jamais fora o lugar do corpo teu.

dor insopitável, lanço meu

corpo em uma sepultura,

inaceitável...

Por que não me deste mais tempo?

agora, como entrar nesta casamata e

não ter vestígios teus...

não vê-la no sofá da sala,

nem tampouco na cama onde

sentávamos e consolávamos nossas almas...

não ouço o arrastar de seu pés...

conheci a ti enferma,

me achaste desiludida, assolada por uma

depressão atroz,

deste-me sentido, tu querias viver...

enquanto eu rogava pelo fim de meus dias!

a vida fora injusta contigo em teu curso...

por que me deixaste aqui?

não me deste mais tempo...

hoje, amiga, eu, incompetente sinto

tua falta gélida como mármore

acaricio teu rosto, mas não me respondes,

Mary, foi breve, porém uma de minhas

maiores verdades foi ver Luz em teus Olhos.



BM

24 maio, 2007


Personagem

Aos vermes, que devorar-me-ão,
Ofertarei-lhes um cadáver
Já em decomposição,
Bom agrado, mas,
Carne de má qualidade.
Aos humanos, que
Devoraram-me em vida,
O prato era bem posto,
Farta refeição
Para ser degustada
Por talheres de prata.
Fui um belo modelo de beleza,
Cortejada pelas inúmeras esquinas...
Aplaudida nas encruzilhadas...
Suplicada nos cabarés de uma Paris apagada.
Na cena fui
Rainha para uns,
Meretriz para tantos,
Donzela para poucos,
Bruxa aos olhos da inquisição.
E para ti?
Fui tão somente a lágrima
Cortante tal como a navalha
Em minha dor.
No fechar das cortinas,
No enterrar da urna,
Por favor, não chorem,
Pois na lápide lerão:
Jaz aqui, uma poeta maldita,

BM



No papel


Ao sair de casa
Fitei os olhos de minha filha
Eles me pediam algo,
Mas nenhum som era
Emitido de seus lábios,
Tomei-a nos braços
E a beijei, como fosse
Aquela a última vez.
Não contente
Ela me pedira colo
Arranhando com força
Minhas pernas já cansadas.
Meu guri esperava quieto
Pelo teu beijo,
Com um gesto delicado,
Amparei aquele pequeno
Queixo nas mãos calejadas
E toquei meus lábios na tez.
Também ele, nada o fizera,
Os olhos de ambos choravam,
Um pranto mudo...
Um protesto sem bandeiras nem cartazes.
Mas caro amigo,
Não falarei mais de meus dissabores,
Nem de minhas dores,
Tomaria laudas diversas
Frente e verso,
Talvez compusesse um livro
De apelos,
Não o farei,
Apenas,
Voltarei para casa...
Minha inimiga me aguarda,
No quarto ao lado.

BM