
31 agosto, 2007

15 agosto, 2007



24 maio, 2007

Aos vermes, que devorar-me-ão,
Ofertarei-lhes um cadáver
Já em decomposição,
Bom agrado, mas,
Carne de má qualidade.
Aos humanos, que
Devoraram-me em vida,
O prato era bem posto,
Farta refeição
Para ser degustada
Por talheres de prata.
Fui um belo modelo de beleza,
Cortejada pelas inúmeras esquinas...
Aplaudida nas encruzilhadas...
Suplicada nos cabarés de uma Paris apagada.
Na cena fui
Rainha para uns,
Meretriz para tantos,
Donzela para poucos,
Bruxa aos olhos da inquisição.
E para ti?
Fui tão somente a lágrima
Cortante tal como a navalha
Em minha dor.
No fechar das cortinas,
No enterrar da urna,
Por favor, não chorem,
Pois na lápide lerão:
Jaz aqui, uma poeta maldita,

Ao sair de casa
Fitei os olhos de minha filha
Eles me pediam algo,
Mas nenhum som era
Emitido de seus lábios,
Tomei-a nos braços
E a beijei, como fosse
Aquela a última vez.
Não contente
Ela me pedira colo
Arranhando com força
Minhas pernas já cansadas.
Meu guri esperava quieto
Pelo teu beijo,
Com um gesto delicado,
Amparei aquele pequeno
Queixo nas mãos calejadas
E toquei meus lábios na tez.
Também ele, nada o fizera,
Os olhos de ambos choravam,
Um pranto mudo...
Um protesto sem bandeiras nem cartazes.
Mas caro amigo,
Não falarei mais de meus dissabores,
Nem de minhas dores,
Tomaria laudas diversas
Frente e verso,
Talvez compusesse um livro
De apelos,
Não o farei,
Apenas,
Voltarei para casa...
Minha inimiga me aguarda,
No quarto ao lado.
BM
05 março, 2007

São trinta e oito semanas
Ou nove meses,
Como quiserem rotular
O fim de uma gestação...
Sim, a vida dele está formada,
Lembro-me de cada detalhe
De nossa gravidez...
De como este broto fora
Concebido...
Das escolhas lexicais,
Das poesias trocadas,
Poesia com poesia se paga...
São palavras tuas, meu bem, lembra-te?
Lembro de nossa tríade inicial,
“Por três noites clamei teu santo nome”
Hoje, por mais que não queiramos somos três,
Encarnados,
Vivos,
Intensos,
Até talvez, arranhados,
Taças trincadas pelo descuido.
O primeiro fio de cabelo branco
Que furtei de tua responsabilidade
Carrego desde então em minhas entranhas.
O beijo roubado entre as poltronas
Desconfortáveis de um cinema.
O dia em que nos amamos ardentemente
Nas almofadas laranja de um sofá
Sem traças...
Fora feito nossa prole,
Nosso precioso rebento,
Agora, desnuda eu de meus artefatos
Sem kajal nem batom,
Parindo algo que sobreviveu às últimas semanas
Berrando por ti em meu ventre...
Nos braços de uma mulher...
Que estendia, luzindo, o nosso sonho.
BM

Os fantasmas sobrevoam
Meus cabelos queimados pelo sol
Tal como corvos, anunciando o
Mais soturno de meus dias.
Tu te foste sem ao menos
Um aceno,
Minha paz, fora em tua bolsa,
Dentro de tua carteira – meu sorriso.
Petrificados em teu colo, ficaram meus olhos.
Desespero de minha calmaria...
Temporal de minhas manhãs ensolaradas,
Eu amo tuas falhas...
Teus erros mais corriqueiros.
Quero deitar contigo em urna marfim
E seguir à única certeza terrena – a morte.
Quero sangrar ao te fazer chorar,
Desejo a punição para os meus membros,
Que sejam pisoteados um a um,
Na guerra do fim dos tempos.
Oferto meu pescoço à guilhotina...
Minhas costas, ao barão, para que
Chicotei meu dorso até
O corpo inteiro ficar coberto de sangue.
Quero teu grito, teu chamado,
Pois minha língua fora decepada pelos
Nazistas quando declarei que amava...
Sou culpada, tal como uma peçonhenta,
Sigo arrastada ao júri...
De lá, viva não sairei
Pois temo a repressão de teus
Olhos míopes e présbitos.
BM

Empresta-me teu peso
Para eu sentir o que suporta
Tuas costas.
Estas mãos, para que eu veja
O que é ter as marcas das chibatas.
A voz, para que eu saiba
O que é calar.
Teus ouvidos, para que eu ouça
Tudo o que te agredi.
Tuas pernas, quero sentir
O cansaço dos anos em teus joelhos
Já adoecidos.
Tuas lágrimas, para eu saber
O quão doloroso é teu pranto.
Teu coração proláptico
Para que eu tenha uma taquiarritmia.
Roubar-te-ei os punhos
Para morrer em teu lugar.

Dei a ti o mais sublime
De minh’alma – aqueles
Versos que compõe
Ora riso, ora pranto.
Versos tortos, se fosse
Poeta saberia versejar,
Mas nem rimas perfeitas
Consigo eu dominar.
Quisera cometer odes para ti,
Minha donzela,
Uma métrica alexandrina...
“Sou poeta menor, perdoai”...
Fá-la-ia sonetos mil
Se tivesse inspiração,
Sentar-te-ia no trono
De que és merecedora,
Em um castelo medieval
Que construiria com meu suor...
Mas não sou mucama,
Nem tampouco Álvaro de Campos,
Sou simplesmente
Sua reles amante!
BM

Por ti, trago na epiderme
Alguns estigmas,
Símbolos de dor?
Marcas feitas por amor.
Nos flancos que são teus
Desenhei a flor que te é predileta.
Neste ventre, assaz venerado
Pulsa um coração iluminado
Tendo como punhal – uma rosa.
Minha flor tirana,
Minha dor existencial,
Meu mal necessário,
Página de meu destino,
Tu me és vital.
BM
24 fevereiro, 2007

04 fevereiro, 2007

Nossos Dias
Não!
Não hei de culpá-la
Pelos dias inteiros que me deixas
À deriva, quase um barco a naufragar...
Sem notícias, sem acenos, sem sequer
Uma garrafa atirada ao mar.
Não condenarei teu sono,
Se te refugias durante os dias
Entre tuas plumas, e te acordas à noite
Para vagar largando lânguida, prostrada
Pelos benzodiazepínicos e tuas canções de ninar
Na cama de nós duas, a minha carcaça.
Ou te comprometes a velar pelo meu sono,
Passando noites acordada ao lado meu.
Lerei para ti, como acalanto, alguma poesia
Do Drummond, enquanto ressonas, e talvez
Em tuas fugas, rogue pela presença de meu corpo
Em vigília ao sono teu.
Não sou cantora,
E nem tenho tua voz suave,
Não sei contar histórias,
E nem tenho tua imaginação fantástica,
Não posso julgá-la,
Nem medir o tamanho de tua dor,
Se também sinto algo ancestral a
Corroer-me as vísceras.
Dar-te-ei meu regaço,
Para que apóies tuas melenas lindas
E se perca do mundo que existe
Fora de nossa alcova!
BM
31 janeiro, 2007

Doaria meus órgãos,
Membros, cabelos,
Unhas, para ser mais...
Daria meu corpo, pois a alma já virou pó,
Para não ter hora marcada,
Para ter num porta-retratos nossos
Sorrisos, lado a lado,
Mesmo que escondessem um pranto ancestral.
Para que não desviasses de mim
Teu olhar como se não rolássemos
Na cama,
Ou numa esteira,
Até mesmo nos sofás da sala.
Queria nos dedos, uns anéis,
Sem cerimônia,
Sem véu, sem branco...
Sem bênção...
Pois está é minha maldição,
Ser a outra!
30 janeiro, 2007

É, de fato, tivera eu uma hemorragia,
Talvez o aborto de nosso filho
Não concebido,
Ou de um amor em botão, recém nascido.
O som de minha voz áspera,
Em total desarmonia fonética
Impedia o entendimento de meus clamores,
Tantos pedidos de socorro,
Por vezes fui súplice em gritos afônicos
Mas, eras incapaz de perceber...
Nesta noite, varava pelas entranhas
O sangue já vinho,
Manchando os lençóis que eram
Trocados a cada semana,
E de meus olhos, escorriam lágrimas rubras
Colorando-me o pescoço,
Aquele cordão
Em ouro, de pouco quilate, assim como
Esta que vos escreve.
De minhas cicatrizes, as gotículas orvalhavam
Como se fossem rosas primaveris
Lavadas e em carne viva.
Porém, se soubesse eu versejar,
Escrever-te-ia um poema,
Como não sou poeta
Só posso lastimar em escorrência
Não ser capaz de trazer os tempos
Ensolarados...
E de volta estaria aos braços teus!
BM
17 janeiro, 2007

Ressonava, terna, leve como as plumas
De faisões angelicais.
Naquele sofá de nós duas...
Deitava-me a cabeça no lado oposto
Ao que amparara teu corpo,
Adormecia na calmaria das almofadas
Abóboras, tais como a que transportara
Outrora, Cinderela, no meu conto, sem fadas.
Sou acometida por um salto,
E de espinha erguida,
Arrancada a unhadas de um sonho
Tão mágico.
Fazia amor contigo, contigo....
Beijava-te tranqüilamente a carne alva,
A pele polvilhada pelo que tenho apreço,
Dançava, unindo meu corpo ao teu,
Roçava,
Mexia,
Meus flancos agarrados entre as pernas tuas,
Ou dominados pelas tuas garras,
Que eram tão minhas naquele instante.
Amamo-nos até a exaustão!
Despertei,
Louca,
Insana,
Morta de cansaço.
E um cio me atirou às paredes, na falta tua
Lágrimas nas pestanas.
Amar-te....O....Belo...amada....
Bálsamo...Aguardo....Regresso....
BM
14 janeiro, 2007

Naquele tempo,
Eu, menina peralta,
Saltava por entre pedras,
Tão miúdas,
Ideal à altura de minhas pernas,
E ínfimas diante do mar
Que se avistava.
Os calendários sendo trocados
A cada dia primeiro,
Traziam-me as marcas da idade,
Mostrando cruelmente
Que meu cobertor,
Já não mais me cobria os pés.
E naquele mar de sempre,
Apenas o tempo, atual,
A mulher senta,
Espia as ondas,
Atira uma rosa
Em saudação.
E não mais dança a sua meninice
No meio daquelas pedras escorregadias,
Se foi o encanto angelical,
A esperança infantil,
Ou a mazela da idade a limita?
Completamente impedida
De atos tão naturais...
Risco um fósforo...
Entre os dedos,
Hoje, de unhas longas,
Apenas uma cigarrilha,
Na areia o papel,
Nos cabelos a caneta,
E tudo aquilo,
Simplesmente meu cenário.
BM

Mas eu ainda estava viva
E meu clamor ardente
Lavando de lágrimas
Um rosto que há pouco
Sorria em uma expressão tão
Singela de felicidade.
Vejo minhas alegrias abortadas
Antes de o poeta declamar
A última estrofe de minha vida.
Fazendo do final um mistério tenebroso.
Fico a esmo vagando nesta cidade
Que velozmente me afasta
Arrasta-me
Atira-me nos braços da solidão.
Agora nada me resta
Além da claridade
Reluzindo ao final
De uma porta que ainda
Vejo entreaberta.
Mas meus olhos já cerrados
Lágrimas nas pálpebras
Mantém meu corpo inato,
Fico sentada na curva da vida.
Vivo os dias rogando
Pelas noites,
E quando as vejo, me afugento
No canto escuro daquela sala de estar.
A dor me é pungente,
Companheira noturna,
Chega ao cair da tarde
E com ela divido meu travesseiro.
Lamento pelo fim que antecedeu
A chegada da felicidade
Olho aquele porta-retratos,
Que beleza singular,
Beijo-te os olhos,
A boca,
E tu sequer reages,
Sinto-te morta,
Seca como uma folha caída
Que o vento traz até os pés
Acorrentados,
Amarrados,
Atrofiados.
E eu, sozinha, sentada na soleira,
Espero pelo suspiro final.

De repente sinto soprar
Em minha face
A brisa gélida da indiferença.
Meus punhos presos
Como se algemas tivessem
Detendo-me as mãos.
Impedindo qualquer gesto de defesa,
Estava à mercê de uma crueldade mordaz
Que atirava ao chão em um ímpeto atroz
Todo o meu castelo de quimeras.
A dor me varava os pulmões
Como uma viga em brasas
Que atinge a alma lentamente
Sem dó nem piedade,
E o sangue a jorrar pelas minhas costas
Retorcidas pelas dores de um parto prematuro,
Mãe de um desejo insensato,
E demasiadamente descabido.
Iludida por um amor tirano,
Uma perversa ternura que amenizava
O pavor com momentos ínfimos de calmaria.
Doce ilusão, a dor subitamente
Fazia-se voraz como uma flecha
Que ultrapassa os galhos de árvores
E estoca no dorso de um sabiá.
Ainda assim, vagava a esmo
Pelos caminhos tortuosos
Que me levariam
Quem sabe de volta à sensatez
Da qual um dia fui dona.
Abandonada,
Perdida,
Por entre os jazigos de um paraíso funesto,
Esbarrando o corpo lavado de sangue
Nos túmulos, aguçando os defuntos
Que desejavam minhas vísceras
Tal como canibais famintos
De uma morbidade assustadora.
E meu corpo já cadavérico
Padecendo por entre as lápides
Rogava num suspiro único:
Volte para mim
E devolva-me a vida roubada.
BM

Padeço
Neste recanto sublime.
Quarto, onde despejo todas
As amarguras que me são pungentes.
Do amor,
Ciência tenho,
De que não sou merecedora.
Apenas a dor que este rosto
Ingrato
Sorrindo-me na fotografia
Tem a oferecer.
Os passos, já confusos,
Não guiam mais o corpo
À serenidade.
Foi-me, pelos dedos escorrida
Toda a vida declamada
Pelo meu fiel rapsodo...
Que trazia aos montes,
Em seus braços
A poética perfeita de meus versos.
E eu, não os recitava,
Apenas os compunha,
E logo, tão logo, os abandonava,
Quando a dor afastava-se pendularmente,
A poesia era a morte de minhas lágrimas.
E o meu corpo,
Ah, vilmente desejado,
Nasceu para ser exposto
Em uma vitrine,
A fim do apreço, da beleza jovial,
Que meus traços possuem,
Ou, para ser deitado, e devorado,
Por uma fera no cio,
Que ao final do dia,
Chama-me de cria.
Não é mérito meu
O que narram os românticos,
Talvez, sina minha seja,
A moléstia de tuas vidas.

A vida fervilha-me o sangue,
Até que as borbulhas jorrem em minha face
Todo o desespero contido
Nesta alma que por ti
Começara a viver.
Sem medos, sem receios,
Sem clamar aos santos
Um pedido de afago
Atirei-me naqueles braços ternos,
Ouvi aquele som brando
Tal qual os pássaros em uma manhã ensolarada
A afagar-me os malogros
De uma vida denegrida
Em vis tentativas de ser feliz.
Mas a busca cessou bruscamente
Sem que eu esperasse,
Estava na esquina
Olhando a vida ao som funesto
De uma sinfonia
Que me embalava os dias
E me acalentava nas noites frias – minha fiel escudeira!
Abandonei-a, dando espaço à calmaria de teus olhos,
À ternura de tuas promessas tão vorazes.
Fui feliz no momento em que senti
Teus lábios quentes tocarem a minha testa,
Em um ato singelo de afeto
Que oprimia a avidez de tocar-me a pele.
Nosso encontro, nossos afagos,
Juras tão secretas.
Libertina, fui até o fim, em
Desejos carnais, vontade de respirar o ar que era teu.
Mas o suspiro derradeiro chegou à véspera,
Na véspera de um sorriso,
Antecedendo os olhos que iriam brilhar,
As mãos que se entrelaçariam,
Corpos se fundiriam.
Tão infantil, tão prematuro,
E já precocemente assassinado
Foi o meu sentimento bandido.
E a busca agora é pelas lágrimas que perdi
No caminho que me levou à tua vida.
Perdi os farrapos dos meus sonhos
Que hoje se fazem desnudos.
E agora nua, sigo meu trajeto incerto,
Vivo os meus dias intermináveis
E rogo pela morte do tempo
Que não cumpre a tua parte.
Ainda espero pela absolvição
De um crime que não cometi.
Que pecado! Este riacho que
Transborda nos olhos do esquecimento.
Ah sentimento indesejado,
Bandido,
Banido,
Criatura que me sugou o sangue,
E a última gota na taça,
Beberemos juntas!
BM

Estas lágrimas que escorrem
Feito uma correnteza íngreme
Em minha face,
Embaçando as lentes arranhadas de meus óculos
São como ácido que corrói
Lentamente as maças do rosto,
Hoje, já envelhecido.
As horas velozmente
Extirpam-me de nossa vida.
E a busca segue incansável
Por um pouco de calma.
Desassossegada, eu cambaleio trôpega
Todos os cômodos desta casa,
Os pés marcados pelo pó,
Que os cupins deixavam nos móveis,
Há tempos não espanados.
Nossa casa,
E, no entanto, não acho
Sequer as suas vestimentas,
Aquelas, que dei a ti,
No ato mais solene de nossa saudade,
Saldei-te,
Pus-te no altar, tal como uma santa,
Venerei por séculos atitudes tão simplórias.
Corro ao toucador
E caço desatinada as peças,
Não acho aquilo que nas manhãs de sol
Escovava as tuas madeixas tão negras.
Vejo, estagnada diante de mim,
A velhice no espelho.
Grito em meu silêncio soturno,
E acabrunhada,
Em um canto qualquer da sala de visitas,
Falo, quase roufenhando,
Procuro....
Cadê tu?
Que nunca esteve aqui.
BM
03 janeiro, 2007

Entregava-me aquele homem
Em cujo corpo reinava uma fera,
Arfada por desejos libidinosos...
Mordiscava-me a pele, as carnes
Como um devorador há muito faminto.
Enquanto eu, apenas uma antítese,
Imbuída numa espécie de amor tirano,
Necessitava daquilo, precisava mostrar a
Minha fera livre do que eu era capaz.
[Não seria melhor terem-na posto
Em jaulas, de grades reforçadas?]
Mas ela estava solta, revolta contigo,
Comigo, com o mundo que a criara.
Sem viço,
Sem libido,
Sem amor,
Sem dor,
Concebia eu, a culpa que carregarei como fardo
Quem sabe por uma vida inteira,
E ao mesmo tempo, o que já
Torna disforme o meu ventre...
Cresce, e sei lá porque tem vontade de vida...
Que viva!
Pois assim, trará sentido à minha!
31 dezembro, 2006

Fora da Lei
Amo-te, não calo,
Mordo-me as carnes aflitas
Na ausência de teu corpo, não nego.
Exalto tua imagem nos papéis
Nas telas, até no que me escreves
Vejo a face que é tua.
Mas só estou,
Ainda posso sentir teus afagos
O abraço mais sincero
O beijo mais ardente
O amor mais puro...que a vida me trouxera
Sou transgressora,
Bandida,
Grito, uivo por ti,
Beligerante
Percorro os campos bélicos
A lutar pelo que é meu...
Fora de lei, contra as escrituras...
O sagrado...
Carrego no dedo um símbolo
Que revela o meu enlaço a ti.
Já bebi de teu sangue,
Já tomaste do meu...
O que mais nos resta?
Amas-me! Creio.
Voltarei da guerra em frangalhos
Mas nos braços estará tu,
Meu ‘amor de perdição’,
E jamais ficarei sozinha
Em meu sofá mofado.
30 dezembro, 2006

Hoje, data da phoînixc renascida,
A ‘virada’, a mudança, a esperança?
Promessas, crendices, fogos, espetáculo...
Casualmente o dia de um nascimento...
Sem mera importância, ou valia alguma!
Quiçá, atualmente, um belo dia para o fim.
Única certeza perene...
Valendo-me do título de grandioso poeta...
Hei de comemorar a data com meus versos parvos...
Um “Hino à dor”...
Melhor pôr no papel
Do que nos braços, em cuja epiderme
Já não há mais espaços para os símbolos
Daquelas barras de ferro, que aprisionam
Minh’alma.
Não caminho mais de mãos dadas
Àquele eu-lírico travesso e peralta.
Arrastamo-nos os corpos suados
Tal como peçonhentos, rastejando...
Os ladrilhos machucam as carcaças...
Há muito marcadas, algumas vivas, sanguinolentas,
Outras necrosadas e até cicatrizes...o tempo passa.
Custoso é o peso brutal da biografia minha,
Mas preciso levá-la no dorso...
Pois agora meu eu-lírico emudece,
A falácia intencional foi passear no inferno.
Pedras que me atirariam as críticas literárias
São fúteis...
QUEM FALA SOU EU!
BM

Desatados os nós....
Uma cama,
Um lado
Abandonado...
Talvez as plumas daquelas
Aves sacrificadas nos travesseiros
Abraçar-te-ão na manhã que inicia...
O sol?
Sabe-se lá onde está...
Assim como os meus pensamentos
Que giram, rodam num ângulo
A formarem 360 graus.
Na mesa, ainda alguns benzodiazepínicos,
Os que me restara da noite anterior.
[Não quero que te dopes,
Nem tampouco que sinta dor...
Meu menino ainda tão inocente].
Mas a dor é necessária como a água,
O ventre rasgado, um coração que hoje
Amanhecera da cor de fetos isolados
Nos vidros de soros, cortados sem formol,
O sangue destes vinhesco, sem vida,
Assim como a epiderme de meu ventre...
Assim como eu mesma.
A Luz? Cadê?
Parece-me que faltara no mundo inteiro.
Não me resta mais nada,
Somente aguardar que os ponteiros
De meu relógio rodem velozmente....
08 dezembro, 2006

Saiba
Que este córrego
Em minhas faces, pescoço,
Colo...
Não rola por ti.
Nem por ser humano algum em especial.
São minhas,
Pelo menos posso dizer:
Sou possuidora de glândulas lacrimais ativas
Depois de secas as salivares...
Já não molho minhas fronhas,
Nem abafo meus soluços
Pela ausência ou presença
De um amor, uma paixão.
Meu pranto hoje é clamor,
Punge,
Atormenta,
E roga pela finitude
De uma existência
Há muito expirada.
Embalagem de validade vencida.
Esperando apenas que alguém
A atire nalgum espaço sórdido
Pois nem para reciclagem sirvo.
02 dezembro, 2006

Não!
Por favor, não desejo que me ames
Tão somente pela piedade que te acometes
Ao me ver assim,
Tomada por tamanha enfermidade,
Crescendo tal como escaras
Que já não cicatrizam mais.
Motivada apenas,
Pelos meus passos incertos
Nos cômodos de tua casa,
Esbarrando o corpo há muito lânguido
Nas paredes úmidas,
Os objetos do aparador
Que sem controle, vão ao chão.
Não quero que me vejas amarelada,
Judiada, no canto de tua suíte,
Sem suportar as náuseas matinais.
Nem tampouco, sentada no chão
Aos pranto ,
De lágrimas que inundam teu quarto .
Não quero que suportes, o que nem eu sou capaz.
Não quero que me tenhas amor,
Já não me amo mais.
Não deves beijar esta boca,
Que só faz secar,
Partida,
Fragmentada,
Como as cenas de uma peça
Sem sucesso,
Que dela, só restam pedaços
Soltos em um estúdio, ao fundo de um quintal qualquer.
BM
01 dezembro, 2006

Entre,
Por favor, mas não bata à porta,
Sem ruídos,
Surda,
Calada,
Afônica,
Envolva-te de minha carne,
Sei, que um pouco marcada,
Mas eu oferto...
Meus cortes,
Minhas nódoas,
Este ventre histerectomizado.
Os desenhos que compõem
O caminho de meu púbis,
Meus pêlos, já quedados,
Dar-te-ei
Um corpo nu, uma caverna ardente
Como as labaredas do inferno,
Para que me entres, profundo...
Mas o que resta,
É carcaça, são vísceras,
Venha, querida,
Entre bem devagar...
Sem fazer alarde, arrepios,
Sem eriçar-me.
Matreira,
Astuta,
Após estar dentro de mim,
Percorrendo nas veias secas
Conduza-me ao limbo.
E lá sim, crave estas garras
No que ainda palpita...
Eis o meu fim assaz delongado!
BM
30 novembro, 2006

Porta da Loucura
Sentia-se terrivelmente
Exausto pelos dias que a vida
Lhe impunha.
Assim como tu, Caríssimo, meu eu-lírico,
Outrora garoto travesso,
Cansaste das manhãs
Que o sol irradia em tua janela
De vidro trincado, e pingos da
Chuva de um verão impuro.
Ainda assim, levanta,
Sorriso nos lábios,
Alma exaurida,
Cabelos penteados,
Mente amnésica,
Corpo ereto,
Espírito aos farrapos.
Transeuntes, milhares aos redores,
Mesas, copos, cigarros,
E a solidão perpétua,
Fantasmagórica em tua carteira,
Tal como um documento necessário.
Meu menino parava diante
De uma porta,
Mogno vínico,
Chaves e fechaduras
Em ouro branco,
Adornada por um marfim
Quase suave,
Estava ele,
Em frente à tua maior in-sanidade.
BM.

A luz se apaga,
Ela grita,
Alto, em desatino,
Depois,
Surda, afônica,
Roufenha...
Amor, amor, agora...
Agora, não!
Antes, mais rápido,
Urgentemente.
No passo, o presente já
É tarde para viver
A véspera é pretérito mais que imperfeito
E o futuro, este, jamais acontece
Aos pés de um leito,
À borda de uma urna,
À beira de uma sepultura.
Molestada, ainda pede,
Súplice,
Implora – amor, amor.
Dúvidas da existência desta quimera!
Seu corpo lanhado
Acende as chagas aos arrepios
Das mãos que já o tocaram.
Não, agora,
Amor é fotografia queimada,
Livros roídos,
Charuto na guimba...
Versos manchados por lágrimas
Que hoje já secaram.
Círio de pavio consumido.
Amanhã, talvez, no jazigo esteja
O amor que tanto desejara.
BM
29 novembro, 2006

24 outubro, 2006

15 outubro, 2006

Nenhuma delas fitou-me o ventre como se estivesse diante de algo fascinante.
Nenhuma delas me deu a mão para que fôssemos caminhar a beira-mar.
Nenhuma delas dançou comigo, em nossas madrugadas insones,
Nenhuma delas traz um homem de Neanderthal por trás da fachada.
Nenhuma delas desbravou locais dantes intocáveis.
Nenhuma delas amou minha alma, tão somente a carne era o desejo,
Dedicar-me-ei a este ser que pôs o sorriso em um semblante há muito escorraçado.
12 outubro, 2006


05 outubro, 2006

Por que me largas trôpega,
Catando por entre ladrilhos
Os resquícios de minha face?
Golpeia-me o corpo, já em chagas,
Estigmas, escaras, para marcares
O que um dia possuía as garras tuas.
Destrói aos risos sarcásticos
Aqueles farrapos que ainda
Cobriam minha integridade.
Denigre o que tenho de mais honesto,
Nos almoços inexistentes de domingo.
Difama,
Aquela que foi mulher
Em tua cama.
Por que ainda rogas,
Se o que pulsa em meio
Aos meus pulmões
Já é cadavérico?
Para que te armas, e
Vai à guerra em minha busca,
Se terás o corpo que destruíste.

Naquele espaço de nós duas,
Oprimias-me tu, uns passos
Que os pés já atrofiados
Não marcavam mais...o chão
De uma sala, onde outrora
Sem juízo, corpos rolavam
À luz das persianas
Dançavam ao vento que
Soprava em nossos cabelos,
Caídos aos arranques.
Aprisionaste-me por quê?
Sem razão pôs-me naquela
Máscara sem oxigênio,
Desligaste o balão,
Sufoquei por entre
As paredes úmidas,
Ali, entre a cristeleira
E o aparador...
Encontraste-me defunta,
Submetida ao domínio
Do que não controlara mais,
Necessitei me morrer um pouco,
Não mais do que um instante...
E tu, achaste-me judiada,
Ainda amparaste minha cerviz,
Mas aquelas mãos não
Eram capazes de suturar.

Culpas a mim,
Tens-me como agressora
Ao teu amor mais sublime.
Juras,
Pelo mais sincero de teu sangue
Escorrido nas trompas,
Óvulos não fecundados,
Ou prematuros abortos...
Que estúpida me faço...
Negas, as lágrimas,
Que em uma manhã
De outono, lavaram o corpo teu
Já lânguido
E ávido de repouso, somente.
Buscas, quem poderá saber o quê?
Se nesta carcaça promíscua,
Há tudo de que necessitas.
Sustentas verdades inócuas
Para aliviares a vaidade
Que te consome desde o berçário.
Rotulas-te pecadora
Por deitares o esqueleto ao lado meu
Em nossas noites insones...
E ofertares a uns ouvidos já surdos
Melodias jamais cantadas.
Por que dizes amar?
Se teus olhos
Não me tocam mais as pestanas.
Tuas lágrimas doces,
Não matam mais a sede,
Nem cessam o sofrimento,
Que causo a teu peito proláptico.

Eis o corpo moreno,
Lânguido, já com algumas
Marcas temporais,
Estirado numa esteira
Qualquer.
O farrapo a cobrir
Parte daquela nudez,
Outrora, inspiração de tantos versos...
Mas, descoberto o ventre,
Ainda sangrava as lágrimas
Dos filhos não concebidos.
Ela fitava ainda,
Com alguma avidez
As pestanas, cerradas
Pela exaustão
Trazida a cada manhã.
A tocar com beijos, leveza de uma pena,
Que um dia rabiscara
Uns poemas em construção,
As personagens eram amantes em brasa...
Dominadas pela paixão imoral,
Pelo súbito desejo de furtar
Da boca, toda a saliva,
Dos olhos, os rios de lágrimas,
Das entranhas, o amor aquático.
Uns corpos que bailavam em solo sagrado
A melodia dos deuses, e tomados
Pelo que ardia, sufocava,
Eram atirados ao chão de pétalas espalhadas,
E em total desatino,
Amavam-se.
Agora, o chão coberto de jornais,
Mostra à alma pagã,
O que ampara o teu cadáver,
No desassossego do despertar.
BM

Sem amor
Meu corpo,
Tão "celebrado",
Por décadas cobiçado,
Desejado,
Para um feito tão trivial.
Sem problemas,
Nenhuma importância
Ao que declamava
Os rapsodos...
Deitar-me-ia nas sedas
Ofertadas dos lençóis manchados
Por marcas de outros amores,
Passados,
Presentes...
Quiçá, futuros.
A carne
Sequer selecionava o
Que as bocas balbuciavam
De forma agressiva,
E necessária às entranhas sedentas.
Tal lascívia atirava-me
A carcaça, surreal,
Às paredes,
No rosto, os golpes,
Pancadas nas ancas,
Sem reação,
Sem dor,
Sem pejo.
BM